"Se não existir um trabalho em rede, não vamos mudar o cenário do câncer no país"

"Se não existir um trabalho em rede, não vamos mudar o cenário do câncer no país"

Às vésperas da votação da PL 14/2018 sobre a notificação compulsória do câncer pela Comissão de Assuntos Sociais (CAS), o projeto foi tema de debate no Fórum Saúde promovido pela Editora Abril nesta terça-feira, 15 de maio, em São Paulo. O evento teve como objetivo discutir o papel da informação como chave para ampliar e melhorar o acesso a uma oncologia efetiva e de qualidade.

"A notificação compulsória do câncer pode ser um divisor de águas para as políticas de enfrentamento da doença no país", disse a presidente do Instituto Lado a Lado Pela Vida, Marlene Oliveira.

Representando o movimento Go All, que reúne nove instituições dedicadas à divulgação de informações sobre cuidados e prevenção da doença, Marlene defendeu a importância da cooperação para avançar neste tema. "Se não existir um trabalho em rede, não vamos mudar o cenário do câncer no país". E completou: "O Go All não vai medir esforços para entender esse cenário e o primeiro passo é aprovar o registro compulsório".

Representando o Ministério da Saúde, Dr. Sandro Martins reconheceu a necessecidade de conhecer os dados dos pacientes, mas expôs alguns obstáculos que deverão ser vencidos para a implementação e regulamentação, caso a lei seja aprovada.

"Garantir o sigilo destas informações é a primeira preocupação", ponderou Dr. Sandro. Segundo ele, há que se pensar ainda na instrumentalização dos centros de saúde e treinamento de profissionais. "A aprovação da lei vai exigir uma ginástica grande dos governos para incorporar novas tecnologias com o orçamento atual". A solução, para o especialista, é envolver o terceiro setor para garantir a sustentabilidade e o cumprimento da lei.

O Grupo Go ALL tem se mobilizado para a aprovação da PL 14/2018. O objetivo é articular formas de colocar a lei em vigor sem que haja gargalos, como ocorre com a Lei dos 60 dias , que também foi tema do Fórum. Por isso, além de levar o tema para discussão na Câmara nos Deputados, as organizações se reuniram para escrever as bases do regimento.

Formação de profissionais também é desafio

Durante o evento, especialistas em Oncologia debateram questões sobre a formação em medicina que também impactam nos números da doença.

Segundo dados apresentados, 70% das faculdades de medicina do Brasil não têm a oncologia como disciplina obrigatória. "O câncer é hoje a principal causa de morte em 10% dos municípios do Brasil e, no geral, só perde para as doenças cardiovasculares em mortalidade. Como é possível formar médicos que não entendam um pouco sobre a doença?" questionou o oncologista Dr. Antônio Buzaid.

Segundo o diretor de Oncologia do Hospital A.C Camargo Cancer Center, Dr. Ademar Lopes, o problema é ainda mais grave quando pensamos que está nas mãos do clínico geral, e não do oncologista, o diagnóstico precoce, que ainda é o principal fator para a cura da doença. "É fundamental repensar nossos programas para formação de médicos. Precisamos preparar o clínico geral para pensar 'oncologicamente'", concluiu.