Os desafios de acesso da Medicina Personalizada

Os desafios de acesso da Medicina Personalizada

 

"Quantas pessoas eu preciso tratar para beneficiar uma?". A questão levantada pelo oncologista Marcelo Cruz na abertura do I Fórum Nacional sobre Medicina Personalizada, realizado ontem em Brasília, define o que é hoje o modelo de assistência praticado no Brasil, a medicina de imprecisão. Como consequência, desperdícios com diagnósticos equivocados ou aplicação de medicamentos inadequados são hoje grandes gargalos do Sistema Público de Saúde. Para se ter uma ideia, reações adversas aos medicamentos são a quarta causa de internações, respondem por 197 mil óbitos e têm um custo de 79 milhões de euros.

Um dos caminhos abertos para a aplicação de tratamentos mais eficazes é o da Medicina Personalizada, já considerada um divisor de águas no âmbito da saúde em todo mundo.

Assim como os exames de imagem se tornaram padrão na medicina, a tendência é que a oncologia genômica também se torne o modelo principal em alguns anos. O desafio, no entanto, reside no acesso. "Como oferecer para toda a população os mesmos avanços e os mesmos tratamentos disponíveis no sistema privado?", questionou a farmacêutica bioquímica Lídia Freire Abdalla durante o debate.

Garantir "tudo a todos" é um dos principais dilemas do Sistema Único de Saúde. A Medicina Personalizada surge como um dos caminhos para contornar essa questão. Identificando as características individuais da doença e levando-se em conta que nem todo paciente reage a um tratamento da mesma forma é possível selecionar as terapias mais indicadas para cada pessoa.

Segundo o oncologista Fernando Sabino, uma das grandes dificuldades é a disponibilidade de profissionais que podem fazer essa seleção, através da indicação de testes genéticos, além do custo. Para ele, a Medicina Personalizada "ainda é um futuro bem distante da maioria da população".

Marcelo Cruz enxerga o cenário com mais otimismo. "A Medicina Personalizada que parece estar longe do SUS e mais perto do sistema privado pode ser comparada com o que aconteceu com o tratamento do HIV quando surgiu".  Em 1986, quando o então Ministro da Saúde Roberto Santos criou o Programa Nacional de DST e Aids, o preço da medicação era exorbitante, no entanto a eficácia justificou sua incorporação. Em tese, o custo-efetividade dos tratamentos da medicina personalizada também justificaria sua disponibilização nos sistemas de saúde.