Câncer de pulmão: cigarro é principal vilão, mas não o único

Câncer de pulmão: cigarro é principal vilão, mas não o único

 

Pensar o câncer de pulmão além do tabaco foi a proposta debatida por especialistas, pesquisadores e indústria no Workshop promovido pelo Instituto Lado a Lado Pela Vida no VI Simpósio Internacional de Câncer de Pulmão. 

"Cada vez mais diagnosticamos o câncer de pulmão em não fumantes, e a descoberta, nestes casos, tem ocorrido em estágios mais avançados", afirmou o oncologista Dr. Marcelo Cruz. Diante deste novo cenário, que entende o tabagismo como a principal causa, mas não a única, diversos temas foram levantados na manhã de discussões. 

"Que causa é essa que tem levado os pacientes ao diagnóstico da doença e muitos deles nunca fumaram?", questionou a presidente do Instituto Lado a Lado, Marlene Oliveira, na abertura do evento.
 
A exposição ao gás radônio é uma delas. Segundo a fisiopatologista, Dra. Yula Merola, "estudos mostram que essa substância pode estar ligada não só ao câncer de pulmão, mas aos tumores de mama, esôfago e linfoma". O Brasil, que abriga a segunda maior reserva de Tório e Urânio, ainda não realiza um levantamento nacional e não conta com medidas para a mitigação. "O que fazemos atualmente, em algumas áreas do país, é levar informações através dos agentes comunitários sobre medidas simples, como ventilar a casa, para evitar a concentração do gás", explica.

Outro fator ligado ao risco de desenvolver a doença é a poluição do ar. "Partículas presentes no ar carregam metais pesados e hidrocarbonetos, substâncias que são carcinogênicas", conta a pesquisadora do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo, Mariana Matera. 

Segundo o pesquisador e diretor do Instituto de Estudos Avançados da USP, Paulo Saldiva, o  grande problema reside na intensificação do tráfego nas cidades. "As indústrias migraram para cidades menores, por questão de custos. A cidade se voltou para os serviços e passou a investir na construção de vias. Quanto mais vias são construídas, mais se entopem de carros". E conclui: "Duas horas respirando o ar de São Paulo equivalem a fumar um cigarro". 

No Brasil, o padrão de regulamentação da qualidade de ar está desatualizado e não segue os limites preconizados pela Organização Mundial da Saúde (OMS). "Quando a gente não vê o problema a gente não acredita. A poluição acaba sendo um problema invisível", constata Mariana Matera.

A gerente da Divisão Toxicológica da Companhia Ambiental do Estado de São Paulo (CETESB), Rubia Kuno, explica que estes padrões estão sendo revistos. As estratégias adotadas pela Companhia para medir a qualidade do ar são as fontes fixas, as licenças que determinam limites de emissão e a regulação do uso do solo.

Tabagismo ainda é primeira causa

Responsável por quase 90% dos casos de câncer de pulmão, o cigarro também foi alvo de discussões dos palestrantes. "O número de fumantes no Brasil teve uma queda, mas o consumo entre jovens aumentou", informou o oncologista Riad Younes.

Ele explica que as vitórias realativas alcaçandas no país, com a lei antifumo, o aumento de impostos e as embalagens com mensagens de alerta, podem ser apagadas nas próxima décadas. Parte do motivo está nas novas estratégias adotadas pela indústria de tabaco.

Neste novo cenário, o oncologista destaca os cigarros eletrônicos (e-cigarettes), baseados no conceito "aquece não queima". O produto é apresentado ao mercado como uma alternativa menos prejudicial. No entanto, os danos à saúde ainda existem. Segundo estudos, os e-cigarettes aumentam em 50% a presença de cancerígenos no organismo.

Presente no debate, o diretor de Assuntos Corporativos da Philip Morris, Fernando Vieira, defendeu o novo produto como um alternativa menos nociva voltada para fumantes que não conseguem abandonar o cigarro.

"Nosso medo é que este produto novo (e-cigarettes), bonito, tecnológico e sedutor, não diminua o número de fumantes e introduza novas pessoas no ciclo de fumantes", indagou Riad. O pesquisador Paulo Saldiva também reforçou a cautela sobre o novo posicionamento da indústria. "O número de fumantes caiu de 34% para 14%, mas não porque pararam de fumar, porque muitos morreram. Agora vem uma nova geração que não pegou o auge da cultura tabagista e que poderia mudar estes números", finaliza.