Câncer de Pênis no Brasil, mais do que um problema de saúde, um problema social

Câncer de Pênis no Brasil, mais do que um problema de saúde, um problema social

Durante o webinar do Instituto LAL firmou-se o compromisso de erradicar a doença no país no prazo de 10 anos - Matéria publicada em 10.08.2020


No último dia 04, o Instituto Lado a Lado pela Vida realizou o segundo webinar, de uma série de cinco, que vão acontecer até dezembro. Dessa vez, o assunto discutido foi o câncer de pênis no Brasil. Especialistas e representantes do Ministério da Saúde, de governos estaduais e do Congresso estiveram reunidos nesse encontro que, mais uma vez, teve audiência mundial, com mais de 500 pessoas online. 

Durante o webinar foi firmado um pacto entre todos, o de erradicar o câncer de pênis no Brasil em um período de 10 anos. Essa responsabilidade já é uma das causas do Instituto Lado a Lado pela Vida que, desde 2008, quando foi criado, se dedica em levar informação de qualidade a população no intuito de conscientizar sobre a importância de cuidar da saúde, tendo como foco a detecção precoce de doenças, o tratamento e, acima de tudo, a prevenção. 

"Criamos em 2011, a campanha Novembro Azul, onde o foco principal é a conscientização sobre o diagnóstico precoce do câncer de próstata, só que durante todos esses anos focamos em todas as fases da vida do homem e não somente no câncer de próstata. Entendemos que o papel do Instituto Lado a Lado pela Vida, como organização da sociedade civil, é engajar o Governo Federal, por meio do Ministério da Saúde e da Coordenação Nacional da Saúde do Homem, a OPAS, as Secretárias Estaduais e Municipais de Saúde, o Congresso Nacional e a população à discutir temas importantes para que o cenário mude em nosso país", destacou Marlene Oliveira, presidente do Instituto LAL, na abertura do seminário.

Como parte da campanha Novembro Azul, a ação "Lave o Dito Cujo" também foi criada pelo Instituto LAL e, por meio de uma comunicação mais lúdica, informa e alerta a população masculina sobre o câncer de pênis "É muito importante que todos entendam que o Instituto LAL tem feito um trabalho forte para diminuir os números do câncer de pênis no Brasil", comenta Marlene durante o webinar. Essa ação pode ser acompanhada pelo Instagram por meio do perfil @laveoditocujo. 

Câncer de Pênis: os números que assustam
O webinar trouxe importantes players da saúde como o doutor Stênio de Cassio Zequi, Head do Centro de Referência em Tumores Urológicos/Robótica/HIFU do A C Camargo Cancer Center, que moderou o encontro.

Em relação aos convidados, estiveram presentes: Francisco Norberto Moreira da Silva, assessor técnico da Coordenação de Saúde do Homem, Maria Dilma Alves Teodoro, diretora substituta do Departamento de Ações Programáticas Estratégicas/SAPS/MS, Carmem Zanotto, enfermeira e deputada, Carlos Eduardo de Oliveira Lula, secretário de saúde do estado do Maranhão e presidente do Conselho Nacional de Secretários da Saúde (CONASS) e Herlon Clístenes Lima Guimarães, superintendente de Atenção Primária à Saúde e Municípios da Secretaria de Estado da Saúde do Piauí.

Durante o webinar, Stênio Zequi apresentou pesquisas e números sobre o câncer de pênis. A doença é um grande indicador das desigualdades sociais do país, afinal, atinge majoritariamente as regiões menos favorecidas, onde a informação é precária e o preconceito ainda é um principal agravante para tratar o assunto. "De acordo com dados do Globocam, órgão da França ligado a ONU, o Brasil é um dos países mais afetados. Quando você olha o cenário do câncer de pênis e olha o mapa da pobreza e IDH do mundo, você pode fazer uma suposição. Os locais mais pobres são os mais afetados. Enquanto na Europa e nos EUA você tem 1 caso a cada 100 mil habitantes, na Ásia, na África e na América Latina esses índices são maiores. No Brasil, hoje, há dados de 3 a 6,5 homens acometidos por cada 100 mil habitantes" apresenta Stênio Zequi.

Ainda de acordo com o Globocam, há 35 mil novos casos por ano no mundo e metade dessas pessoas morrem por causa do câncer de pênis. O Brasil está entre os países mais afetados. Segundo dados de um estudo epidemiológico feito em 2008 pela SBU (Sociedade Brasileira de Urologia), 3% já amputavam o pênis com menos de 26 anos e 8% até 35 anos. Se somarmos os números cerca de 38% dos homens têm que amputar o pênis antes dos 55 anos de idade. 

Apesar dos números, que impressionam, esse é um tipo de câncer fácil de se prevenir, basta a higienização do órgão. Então, por que há altos índices da doença? Falta de informação. A informação não chega ao público que precisa, justamente porque são pessoas menos favorecidas no que diz respeito a educação, com baixos índices de instrução. 

Por meio de medidas de higiene educativas é possível melhorar os índices da doença no país. Isso deve começar nos primeiros estágios da vida do homem, na infância e na proteção correta do órgão nas relações sexuais. "É preciso orientar a criança a lavar o pênis, a ter proteção na relação sexual. Quando é diagnosticado precocemente é possível fazer uma incisão parcial, o que dá mais qualidade de vida ao paciente. Ele consegue urinar em pé e ter uma vida sexual. Nos casos mais avançados, o que é comum no Brasil, chega-se a fazer a remoção inteira do pênis. Isso faz com que ele urine sentado e não tenha uma vida sexual, limitando a qualidade de vida e a autoimagem", explica Stênio.

Dados do Datasus, do Ministério da Saúde, revelam que, na última década (2008 -2018), a mortalidade do câncer de pênis não caiu. Foram cerca de 4.000 mortes. As amputações também aumentaram (46%), assim como a quimioterapia (56%). Em relação as biópsias, elas diminuíram, de 3700 realizadas por ano para 1100.

Diante desse cenário, o que é possível fazer para atenuar os números e resolver o problema da doença no país? Para a deputada Carmem Zanotto, o problema está, justamente, na falta de informação "Parece que esse câncer é tão complexo porque está mutilando homens jovens. Precisamos retomar as campanhas. Se atingirmos as regiões que têm maior número de casos podemos mudar comportamentos. A gente talvez tenha que tratar esse tema na sala de aula. Mostrando a importância da higiene nos primeiros anos de vida", diz ela.

A representante do Ministério da Saúde, Maria Dilma Alves Teodoro, defende que é preciso quebrar o preconceito que ainda há sobre o assunto "Precisamos ter um investimento na educação primária. Em termos de campanha, precisamos falar mais e principalmente trabalharmos para diminuir o preconceito com relação a esse cuidado. No começo da campanha sobre o câncer de próstata havia preconceito em falar sobre o assunto, mas a gente sabe que todo o movimento que foi feito fez com que os homens procurassem a prevenção. Esse é o caminho", comenta Maria Dilma.

Além da falta de informação e do preconceito, outro grande problema apontado pelo secretário da saúde, Carlos Eduardo de Oliveira Lula, é a desigualdade social do país. "A falta de educação, saneamento básico e cultura tem consequências trágicas para a saúde pública. Os indicadores de câncer de pênis são maiores onde tem mais pobreza. Na verdade a gente não está só diante de um problema de saúde pública, mas um problema maior, que é a social", reflete Carlos Eduardo.

Campanhas, cartazes, guias e uma educação efetiva na educação primária são ações que já são implementadas em áreas menos favorecidas do país e que, segundo Francisco Norberto Moreira Silva, assessor da Secretária de Atenção de Saúde do Homem, vem dando resultados positivos "A saúde do homem vem trabalhando por meio da mudança da ambiência, consertando e enviando cartazes e guias, realizando oficinas no Maranhão e no Piauí para tratar o câncer de testículo. As estratégias que estamos usando vem funcionando bem. Essa experiência é muito rica porque se organizou a partir da atenção primária, com os profissionais da atenção primária de saúde e principalmente profissionais da zona rural. Tudo isso pode ser replicado em outros lugares do país. Em relação ao câncer de pênis, temos que pensar em algo próximo deles, que possa envolver a população e os profissionais da saúde. Temos que ajudá-los a pensar e a capacitá-los para atender essa população" propõe Francisco.

Como erradicar essa doença?
O Instituto Lado a Lado pela vida vem trabalhando para diminuir os números de câncer de pênis no Brasil. Liderando debates e ações que visam a informação de qualidade sobre o assunto, a instituição já fez um requerimento de uma audiência pública onde será possível ampliar essa discussão.

Frente a essa luta e iniciativa, Marlene inicia o segundo bloco do webinar discutindo quais os caminhos e o que a frente parlamentar mista pode fazer para erradicar a doença no Brasil. A deputada Carmem Zanotto propõe o prazo de 10 anos para resolver o problema no país "O que eu proponho é que, a partir do debate de hoje, a gente tenha um caminho de ações de prevenção, com regras audaciosas para erradicar, em 10 anos, o câncer de pênis" diz Carmem.

O caminho parece longo, mas segundo a deputada, há uma janela de oportunidades que não podem ser perdidas como, por exemplo, investir na formação dos agentes comunitários de saúde, afinal, são esses profissionais que estão mais próximos de cada um dos domicílios "Se nós aproveitarmos essa janela da formação dos agentes de saúde e trouxermos, em especial, para essas regiões menos favorecidas podemos acabar com o preconceito e encarar isso como prevenção, na busca de salvar vidas. Essa patologia é possível de vencer, porém é preciso uma interface com a área da educação", complementa Carmem Zanotto. 

A questão do declínio das biopsias no país também é um fator que precisa ser mais bem compreendido, afinal, o procedimento é fundamental para o diagnóstico precoce do câncer de pênis. Na discussão sobre o assunto, Carlos Eduardo comenta que as campanhas são primordiais para que essa diminuição seja superada, pois quanto mais se fala em prevenção, mais as pessoas buscam sobre ela "É incrível como não é fácil comunicar a doença, sobretudo para a população que está sujeita a ela, mas se a gente não fala eles simplesmente não procuram", diz o secretário da saúde.

Há dois caminhos para se erradicar o câncer de pênis: a informação, por meio de campanhas e ações, e a capacitação de profissionais. A meta foi estabelecida durante o webinar e, em 10 anos, acredita-se que o problema seja solucionado no país. Piauí será o início dessa jornada, já que é um estado que precisa de atenção primária. 

O Instituto Lado a Lado pela Vida lidera, mais uma vez, essa discussão e promove debates como esse, que trazem à luz um assunto que não pode ser deixado de lado. É necessário salvar vidas e, somente, por meio do conhecimento e reunindo players da saúde é possível encontrar soluções.

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