SAÚDE PELO MUNDO: Síndrome da cabana: o medo do que tem lá fora

SAÚDE PELO MUNDO: Síndrome da cabana: o medo do que tem lá fora

Voltar à liberdade é uma nova mudança de vida... e amedronta, mas é uma sensação legítima. Foto: Cristiane Murray/Arquivo Pessoal

Por Cristiane Murray*
Artigo publicado em 18.06.2020


Lar é uma palavra que não encontra tradução exata em todas as línguas. Em italiano, por exemplo, não existe um sinônimo exato. Pode-se dizer 'focolare domestico', ou usar diminutivos como 'casetta' ou 'casuccia'... mas nenhum deles reflete perfeitamente o significado do termo, embora, naturalmente, todos os povos do mundo saibam o que é um lar. Alguns meses atrás, quando o governo decretou o lockdown severo, o lar virou o ambiente mais seguro onde estar. Hoje, constatamos a existência da 'Síndrome da cabana': a vontade de não sair do nosso ninho aconchegante, protetor, meio fechadinho. 

Psicólogos afirmam que esta condição é uma dimensão emotiva normal após um longo período de afastamento da realidade. Ao que tudo indica, a Síndrome foi identificada no início do século XX, a era da corrida do ouro nos Estados Unidos, quando os exploradores eram obrigados a passar meses inteiros dentro de uma cabana. Tendo que concentrar a atividade em certas épocas do ano, viviam num estado de isolamento tal que em seguida, sobrevinham a recusa em regressar à civilização, a desconfiança nos outros, o stress e a ansiedade.

Estranho, mas a ideia de sair de casa pode dar medo. Isso ficou evidente com a segunda fase do isolamento, quando mesmo com precauções, as portas para a liberdade foram abertas para nós. Agora, que podemos retomar a vida em mãos, por incrível que pareça, temos 'paura' de viver como antes. 
Os meses de distanciamento obrigatório já eram a normalidade e assim, voltar à liberdade é hoje uma nova mudança de vida... e é por isso que amedronta. É uma sensação legítima! 

Nesta fase de recuperação depois do confinamento, a possibilidade de recomeçar a contatar o mundo exterior causa também uma certa desorientação. E para quem viveu a experiência do contato direto com o vírus ou da perda de alguém querido é pior ainda, pois pode haver o risco ainda maior de um trauma real.

O receio é tamanho que às vezes nos sentimos aliviados ficando confinados na 'cabana', mesmo que ela seja um pequeno apartamento. Além disso, a necessidade de abrandar o ritmo de vida consolidou nossas relações estáveis. Reiniciar a caótica rotina diária sem dúvida vai subtrair tempo ao convívio afetivo, o que certamente desestabiliza.

Segundo a Sociedade Italiana de Psiquiatria, mais de um milhão de italianos estão afetados pela Síndrome da cabana ou 'Síndrome do prisioneiro', que se pode também manifestar de modo disfarçado, com tristeza, desmotivação, sensação de cansaço. Nestes casos, é comum ouvir dizer "estou à vontade em casa, não sinto necessidade de sair...". 

Mas o ser humano não se deixa abater; um dos nossos maiores recursos é a capacidade de adaptação. Depois de um momento inicial de fadiga, nos adequamos e encontramos sempre um caminho para enfrentar uma nova situação (que esperamos positiva). Temos que ganhar confiança de novo, começar devagarzinho a ir a lugares conhecidos, onde nos sentimos seguros. Só assim podemos sair da cabana. 

A 'cabin fever' tenderá a desaparecer ou diminuir com o tempo, à medida que a situação externa se normaliza, mas podemos colocar em prática estratégias para lidar com ela. Por exemplo, acolhendo as emoções, cuidando de nós mesmos com pequenos gestos cotidianos, estabelecendo objetivos, organizando uma rotina diária de trabalho, gestão doméstica, tempo livre, exercícios. O desafio é transformar o que aconteceu num acontecimento positivo: uma circunstância sem precedentes em que a capacidade ancestral de adaptação do homem nos fez refletir sobre o valor do essencial, enfatizar a importância de nossos afetos e limitar o supérfluo.

Quantas vitórias e conquistas temos pela frente! Emoções, coração batendo, sorrisos, olhares e lágrimas, doces ou amargas...  Com o tempo que passa, vivemos nossa existência como num filme sem script do qual somos os protagonistas, mas sem antes termos ensaiado. Cada momento, cada dia, semana e ano do nosso viver é a estreia e a única projeção deste filme. Atores da nossa obra prima, encenamos no palco da vida, que não tem outro diretor senão nós mesmos. 

*Cristiane Murray é formada em administração de Empresas pela PUC-RJ. Vive na Itália, onde aprendeu a ser jornalista e por vários anos integrou a equipe brasileira da Rádio Vaticano. Envolvida em temáticas sociais e ambientais, participou de todo o processo do Sínodo para a Amazônia, realizado em 2019, tendo sido em seguida nomeada pelo Papa Francisco como vice-diretora da Sala de Imprensa da Santa Sé.