Quarentena e homeschooling: o resgate do papel da família na educação dos filhos

Quarentena e homeschooling: o resgate do papel da família na educação dos filhos

Texto publicado em 05.06.2020


Por Renato Falci Jr.

A educação domiciliar (homeschooling) foi, por muitos séculos, o único método de ensino para as crianças. Com o surgimento das escolas elementares, no início do século XIII na Europa, gradativamente, essa função foi sendo transferida para essas instituições.

A sociedade se organizou em famílias desde o início da sua história e esse modelo deve ser considerado vencedor, pois foi testado através de vários séculos e culturas, bem como sobreviveu às mais variadas adversidades. Por diversas mudanças econômicas e estruturais na sociedade do século XX, os casais assumiram cada vez mais atividades econômicas, restando menos tempo para a dedicação aos filhos (abep.org.br). Nesse contexto as escolas passaram progressivamente a ter um papel maior, a ponto de a educação domiciliar soar como algo impossível de ser realizado.

Por volta de 1970, esse hábito de ensino domiciliar ressurgiu nos Estados Unidos, sendo legalizado nesse país e reconhecido em vários outros, como Canadá, Reino Unido e Alemanha. Mais de 20 países permitem o homeschooling atualmente. Hoje, já existem aproximadamente 1,77 milhão de alunos de 5 a 18 anos sendo educados dessa forma nos EUA. No entanto, ele ainda não é mundialmente aceito, sendo criminalizado em países onde o estado deseja ter o monopólio da educação.

No Brasil, em setembro de 2019, a Câmara Municipal de São Paulo aprovou o Projeto de Lei 84/2019, que autoriza o ensino domiciliar na educação básica, incluindo a Educação Infantil, o Ensino Fundamental e Ensino Médio para os menores de 18 anos. Mas, pela recente aprovação e pouca difusão das plataformas de ensino e auxílio aos pais, é um método pouco utilizado.

Entretanto com a pandemia de coronavírus, esse método, que estava restrito a poucas famílias, tornou-se praticamente obrigatório para muitos pais com filhos em idade escolar, algo imposto pelo isolamento social ou pelas diversas formas de quarentena. Apesar do curto período de adaptação e o improviso de plataformas, que tinham como objetivo a união da tríade: escola, pais e aluno(s), o sistema foi implantado de forma experimental e já podemos identificar os primeiros resultados dessa experiência.

Primeiro devemos entender que ensino doméstico não se trata simplesmente de dar algumas lições para os filhos. Trata-se de assumir, em diferentes graus de dedicação, a educação elementar da prole. Existem várias plataformas para isso e muitas delas incluem um tutor, que supervisiona e valida a eficiência do método, de forma que, quando bem feito, tem desempenho semelhante a boas escolas, com a vantagem de maior proximidade da família. Não se trata de um abandono das escolas, mas de colocar a família mais presente nessa relação aluno-escola-família, dando maior sintonia não só na educação, mas nos valores morais da formação da criança e do adolescente.

Com isso, podemos sintetizar a principal vantagem desse método, que constitui maior proximidade da família, com supervisão quase que integral do conteúdo a ser ensinado aos filhos, incluindo a formação moral. Soma-se uma vantagem secundária para as famílias numerosas, pois o custo médio por filho é reduzido significativamente.

Por outro lado, o argumento negativo é a sobrecarga dos pais que já são encarregados de várias outras tarefas do lar e do trabalho. No modelo atual de atividade do casal, onde ambos assumem trabalho fora de casa, assumir quase que completamente a tarefa de ensinar os filhos e a responsabilidade pelo seu desempenho escolar pode ser um fator de estresse considerável. Para contornar esse problema, existem modelos variados de ensino domiciliar, onde é facultativo a presença de um tutor associado a professores para determinadas matérias, amenizando assim a carga de trabalho para os pais e suprindo deficiências pontuais.

Em síntese, o ensino domiciliar é uma modalidade em expansão que, como tudo tem vantagens e desvantagens. Certamente as vantagens são mais perceptíveis para famílias com filhos numerosos ou para aqueles que desejam mais proximidade e controle da educação dos filhos. Conciliar no modelo de trabalho atual ainda é um grande desafio. Não acredito que a quarentena seja capaz de mudar definitivamente a forma de educação das crianças no Brasil, neste momento. Mas certamente, o ensino domiciliar, que já era uma semente em brotamento, ganhou bastante vitamina.