Motivos para largar o cigarro: melhora na saúde e economia de gastos

Motivos para largar o cigarro: melhora na saúde e economia de gastos
Ex-fumantes e fumantes em tratamento contam suas trajetórias para deixar o vício
Notícia publicada em 29.08.2019

Bia Rodrigues, Redação LAL - O Brasil tem hoje cerca de 18 milhões de fumantes e o tabagismo está entre as principais causas de morte evitáveis no mundo, segundo a Organização Mundial de Saúde (OMS). A história quase sempre se repete. O primeiro contato com o cigarro foi ainda na adolescência por curiosidade, por acreditarem nas propagandas glamorosas da indústria tabagista - muito comuns no passado - ou por um ato de rebeldia. Mas quando perceberam já tinham no cigarro sua maior companhia em momentos de crise, ansiedade e interação social. Se a decisão para dar a primeira tragada foi impensada, a de fumar o último cigarro vem acompanhada de um grande desafio com altos e baixos e que precisa de muita determinação. Os motivos para se tornar um ex-fumante vão desde a melhora na qualidade de vida e na saúde em geral até a economia de gastos.

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Mais de dois terços das pessoas que experimentam um cigarro tornam-se, pelo menos temporariamente, fumantes cotidianos. É o que aponta a pesquisa "What Proportion of People Who Try One Cigarette Become Daily Smokers?" (Qual a proporção de pessoas que experimentam um cigarro e se tornam fumantes cotidianos?), pulicada em 2017 na revista Nicotine & Tobacco Research. Evitar o primeiro contato é, portanto, uma estratégia importante para reduzir o número de novos fumantes, principalmente, quando pensamos nos adolescentes. "A exposição à nicotina, por exemplo, na adolescência, quando o cérebro está em formação, muda o funcionamento e a plasticidade cerebral. A saúde mental é prejudicada. Quando você usa precocemente qualquer substância psicoativa, seja nicotina, maconha ou álcool, quando o cérebro não está formado, ele é exposto a uma série de desequilíbrios e, se torna vulnerável, a doenças psiquiátricas no futuro", explica a cardiologista e coordenadora da Área de Cardiologia do Programa de Tratamento do Tabagismo do InCor (Instituto do Coração do Hospital das Clínicas da FMUSP), Jaqueline Scholz.

O jornalista e estudante de medicina, Gustavo Villas Boas, 39 anos, está no meio do processo para largar o vício e relembra que, quando era criança, gostava do cheiro de fumaça do cigarro. "Aos 4 ou 5 anos, eu gostava do cheiro. Quando eu tinha cerca de 11 anos, ganhei uma amostra grátis com amigos em frente a um mercadinho e fumamos. Deu tontura, mas eu gostei da sensação. Me tornei fumante aos 16 anos", diz Gustavo, que usa cloridato de bupropiona, chiclete de nicotina e pratica atividades físicas como estratégia para se tornar ex-fumante. No caso do estudante, a dificuldade para respirar e não sentir cheiro pesaram na decisão para abandonar o vício.

A saúde é um dos motivos - e talvez o mais importante - para que um fumante inicie o processo. Afinal, o tabagismo é fator de risco para doenças cardiovasculares e câncer, as duas maiores causas de mortes no mundo todo. "Em grande parte dos casos, se espera algum  acontecimento com a saúde para então decidir parar de fumar. O fumante brasileiro, de modo geral, é bem orientado e tem vontade de parar de fumar, mas, muitas vezes, ele não está no momento para dar esse passo. Afinal, envolve uma dependência e é um processo difícil", destacou a médica do InCor.

Foi uma gripe muito forte que levou o analista de sistemas Cláudio Bidóia, 57 anos, que fumou dos 16 aos 47, a decidir abandonar o cigarro. "Experimentei um cigarro roubado do maço do meu pai aos 8 anos. Aos 16 anos, comecei a fumar por pura ilusão de adolescente, achando que ia parecer mais adulto e o cigarro virou algo como uma companhia. Como todo fumante, eu pensava em parar. Então, fiquei bem gripado e com febre e não tive vontade de fumar por 3 dias. A partir disso, decidi fazer um esforço e parar de vez", conta Cláudio, que já havia feito uma tentativa aos 25 anos, mas após seis meses, voltou ao vício. "Além disso, minha família é pré-disposta a ter pressão alta e o cigarro é um fator agravante. Eu tenho pressão alta e tomo remédio, creio que o cigarro tem alguma responsabilidade nisso", acrescenta.

A história da mestranda em Literatura e Comunicação Juliana Saporito Taddone, 39 anos, fumante há 23 anos, não é muito diferente. Ela experimentou o cigarro pela primeira vez aos 16 anos, com as primas e o irmão mais velho e conta que já tentou parar algumas vezes, mas sem sucesso, por preocupação com a saúde. "Tive um evento cardíaco (espasmo arterial) e fui submetida a um cateterismo há 5 anos. Parei durante um ano sem ajuda, mas voltei durante uma crise de ansiedade. Quando engravidei, parei por um ano e meio, e voltei novamente. Minhas recaídas estão ligadas a algum processo emocional - ansiedade, solidão ou estresse. Sempre encarei o cigarro como uma 'companhia' e até mesmo hobby, o que acredito que dificulte parar de vez", conta Juliana, que mora nos Estados Unidos.

Outro motivo que pode ser decisivo na hora de largar o vício é o bolso. Quanto a pessoa vai economizar depende de quantos cigarros ela fuma por dia. Em uma conta rápida, vamos considerar que a pessoa fume um maço por dia ao custo de R$ 10, ou seja, em trinta dias o gasto é de R$ 300. Ao abandonar o vício, a economia pode chegar a R$ 3.600 por ano. Foi justamente o dinheiro que levou a jornalista, que atualmente trabalha com atendimento ao cliente na Irlanda, Gabriela Lobianco, 37 anos, a desistir do cigarro. "Morei por um tempo em Portugal, enquanto fazia um mestrado. Lá comecei a gastar dinheiro com cigarro ao invés de comida. Passei a fumar dois maços por dia. Minha rotina era acordar, fumar um cigarro e tomar café preto. Quando tinha, eu fumava maconha para ter apetite. Se não tinha, eu ficava sem comer até a tarde, só fumava e tomava café pela manhã.  Ao voltar para a Irlanda, estava totalmente sem grana e meu consumo de cigarro teve que cair drasticamente. Aqui cigarro é extremamente caro. Comecei a namorar meu atual marido e ele disse que me dava apoio para parar. Resolvi deixar", relembra Gabriela, que fuma eventualmente em determinadas situações, mas "sempre me arrependo. A ressaca do cigarro - mesmo que somente um - é pior que qualquer outra".

Para os fumantes, o cigarro pode se tornar uma maneira de interagir socialmente e uma companhia em momentos difíceis. Foi em um momento de dificuldade na adolescência que a publicitária Mariana Bonfim, 34 anos, deu a primeira tragada. "Aos 13 anos, experimentei cigarro e maconha. Eu estava passando por problemas de depressão por conta de bullying na escola e ele foi uma muleta. Hoje, eu fumo em momentos que estou chorando, seja por raiva, tristeza ou estresse. O cigarro é a única coisa que me faz parar de chorar", afirma a publicitária, que foi usuária de maconha e outras drogas lisérgicas, principalmente durante o início da vida adulta.

Hoje, ela está há 4 anos, 2 meses e 20 dias sem beber, sem maconha e as outras drogas, graças à ajuda de um grupo de apoio aos moldes dos Alcoólicos Anônimos e os Narcóticos Anônimos. "Dos 20 aos 30 anos, meu consumo de cigarro e de outras substâncias foi alto. Durante a gravidez, não consegui parar com o cigarro, a maconha e o álcool. Após ser demitida ao voltar da licença maternidade, os níveis de consumo ficaram preocupantes e não conseguia cuidar da minha bebê. Foi quando conheci o grupo de apoio", conta Mariana. A publicitária, que é mãe de duas filhas e frequentadora de um centro espírita kardecista, entende que a adicção é uma doença química, emocional e espiritual e que é preciso tratá-la nos três níveis. "Me sinto vencedora pelo que já superei, mas tenho consciência do que ainda falta. Realizo um tratamento com um psiquiatra, que usa a psicologia comportamental para a mudança de hábitos associados ao ato de fumar. No momento, a questão para que eu deixe o cigarro é meu esposo, que começou a fumar quando nos conhecemos. Quando o casal fuma, os dois precisam parar juntos. Nossas filhas sempre nos pedem isso. Mas ainda não encontramos o momento", explicou Mariana.

Ter o interesse em parar de fumar é o primeiro passo de uma longa caminhada para superar o vício. O trajeto a ser percorrido não é fácil e podem ocorrer recaídas, mas parar não é impossível e devolve ao indivíduo a liberdade perdida. "O fumante tem uma série de limitações e todo mundo quer ser livre. Então, parar de fumar é reconquistar a liberdade. Claro que temos nossas responsabilidades, mas não depender de algo para começar ou finalizar seu dia é fundamental. A melhor coisa que um fumante pode fazer pela saúde é parar de fumar e procurar ajuda, se não conseguir sozinho. Não ser dependente é uma grande conquista", finaliza a cardiologista do InCor, Jaqueline Scholz.