COMO ASSIM, DR. FALCI?: Possíveis sequelas da COVID-19 e os novos cuidados com a saúde

COMO ASSIM, DR. FALCI?: Possíveis sequelas da COVID-19 e os novos cuidados com a saúde

Por Renato Falci Jr.*
Texto publicado em 07.08.2020

 


No passado, as infecções virais eram tratadas com simplicidade, pois pouco se conhecia sobre o assunto. As gerações de pais e avós atuais devem ter na mente o jargão: "é virose, espera que passa sozinho, porque não tem remédio".

De fato, essa afirmação é verdadeira. No entanto, com os avanços da ciência estamos conhecendo progressivamente melhor os vírus e, apesar de ainda termos mais perguntas do que respostas, hoje já temos grande respeito - para não dizer medo - por esses microorganismos tão pequenos, muito menos complexos que uma célula, mas capazes de fazer grandes estragos no organismo.

As infecções virais eram tidas como afecções agudas, com baixa letalitade, que permitiam a recuperação completa da pessoa infectada, após o ciclo da doença. Entretanto, no final do século passado, a melhor compreensão das hepatites virais, bem como o surgimento da síndrome da imunodeficiência adquirida (AIDS, na sigla em inglês), nos permitiram conhecer um espectro muito maior da atuação dos vírus e, com isso, dar início a um enorme campo de desenvolvimento e pesquisa para o entendimento desses microrganismos e desenvolvimento de drogas antivirais.

Diante desse conhecimento e na atual fase da pandemia em que nos encontramos, nos indagamos sobre as possíveis sequelas definitivas da COVID-19, doença causada pela infeção do novo coronavírus.

Sabemos que o coronavírus tem como alvo os pulmões e que as lesões agudas nesses órgãos são responsáveis para alta mortalidade da doença. Sabemos também que o vírus tem o potencial de infectar praticamente todos os órgãos do organismo, mesmo sem apresentar, obrigatoriamente, sintomas relacionados a cada órgão infectado. Além disso, um fato que chamou a atenção, foi a alta incidência de insuficiência renal aguda com necessidade de diálise nas UTIs na Europa, principalmente na Itália. (Rev. Bras. Enferm. vol. 73 supl. 2 Brasília 202 Epub 2020). Embora seja precoce para uma conclusão definitiva, tal dado pode sugerir que esse vírus também seja capaz de promover algum dano renal. Dois fatores de confusão ainda precisam ser isolados: a idade mais alta dos pacientes na Europa e a infecção geral do organismo nos casos graves que, por si só, é capaz de prejudicar temporariamente a função renal.

Assim, pelo que conhecemos até o presente momento sobre a nova infecção viral, de uma forma sucinta podemos afirmar que:

1 - Trata-se de um vírus capaz de infectar vários órgãos, tendo como foco principal os pulmões.

2 - A infecção, em aproximadamente 5% dos casos, é capaz de gerar uma resposta inflamatória sistêmica que, por si só, pode acometer a função de outros órgãos como os rins e o coração, a ponto de gerar um colapso incompatível com a vida. 

3 - A maioria dos danos são reversíveis, mas não estão descartadas as possibilidades de sequelas definitivas decorrentes da fibrose (cicatrização) dos tecidos acomentidos. Isso vale para todos os órgãos atingidos, mas principalmente para os pulmões.

4 - A avaliação da extensão dos danos definitivos requer tempo e acompanhamento da saúde dos pacientes. Portanto não teremos as respostas definitivas no curto prazo.

Assim, como conclusão, entendemos que os pacientes acometidos pela COVID-19 (e talvez todas as pessoas) necessitem de um cuidado mais intenso com a saúde nos próximos meses - talvez anos - para que, caso identifiquem-se sequelas, elas sejam tratadas precocemente e, seu dano, mitigado.

Leia todos os textos publicados na coluna Como Assim, Dr. Falci?