Como assim, Dr. Falci? - Dia do Homem: vitórias e desafios

Como assim, Dr. Falci? - Dia do Homem: vitórias e desafios

Por Renato Falci Jr.*


Apesar da longa existência do ser humano neste planeta e das mutáveis teorias que tentam explicar seu surgimento, foi nos dois últimos séculos que sua expectativa de vida aumentou significativamente, passando de poucas décadas para quase um século. Enquanto há pouco mais de cem anos a expectativa de vida no Brasil era de apenas 33,7 anos, hoje podemos comemorar a marca dos 72,5 anos para os homens e dos 79,6 anos para as mulheres 1 .

São múltiplos os fatores aos quais podemos atribuir essas mudanças na longevidade. A principal contribuição para esse processo vem do avanço na área da saúde, protagonizado pelo conhecimento científico aplicado, tanto na medicina como nas indústrias farmacêuticas e de equipamentos médicos. Outros aspectos foram a melhora das condições de higiene,  saneamento e a produção de alimentos, em escala mundial e a expansão a um número maior de pessoas de bens e serviços, com melhor qualidade e menor custo, iniciados com a revolução industrial.

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Diante de tão rápido e expressivo aumento na expectativa de vida, surge a dúvida se existe espaço para mais progresso e, além disso, o que mais poderia ser agregado a ele para aumentar a qualidade de vida, a saúde mental, a sensação de pertencimento e o relacionamento interpessoal. Como seria possível implementar essas estratégias?

Observando as recentes mudanças no mundo nas duas últimas décadas, notamos que o aumento considerável da velocidade da informação, em consequência da Internet, impuseram um novo ritmo na vida cotidiana das pessoas, que foi naturalmente incorporado em todas as áreas do conhecimento, incluindo a da saúde.

A crescente disponibilidade de informação leva o capital intelectual para mais pessoas a um custo baixo. Novos rumos e perspectivas começaram a surgir, como a criação de bancos de dados gigantes e, consequentemente, o estudo do comportamento de doenças em grupos específicos; a entrega de conhecimento sobre saúde, direto ao paciente, através de programas de esclarecimento e prevenção de doenças, com impacto mundial e no Brasil, como o "Novembro Azul" e o "Outubro Rosa".

É nesse novo e crescente cenário com programas bastante conhecidos como os acima citados, que o paciente ganha protagonismo nessa busca por aumento da sua expectativa de vida. O "Outubro Rosa", mundialmente conhecido, tem alta taxa de sucesso na disseminação de informação sobre o combate ao câncer de mama. O "Novembro Azul", lançado no Brasil pelo Instituto Lado a Lado, pioneiro de todos os programas voltados para a Saúde do Homem, tem resultados semelhantes no diagnóstico precoce do câncer de próstata. E por que esses programas ganharam destaque mundial? O câncer de mama, na mulher, é o principal tipo de câncer em número de novos casos por ano, e, no homem, o câncer de próstata detém o primeiro posto nessa classificação 2 . E ambos, quando diagnosticados precocemente, têm tratamento adequado e alta possibilidade de cura.

Apesar de tudo que foi exposto sobre facilidade na difusão de informações, temos ainda alguns desafios. Sabemos que, independente da cultura, homens procuram menos atendimento médico que mulheres, segundo o IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística). Este é um dado que chama a atenção e que, num olhar superficial, parece estar relacionado à menor expectativa de vida deles. É necessário, porém, ir mais a fundo em seu entendimento, existindo muitas motivos que explicam esse fato.

Uma das questões a serem destacadas é o papel do homem na sociedade e a sua própria natureza. Enquanto a mulher, naturalmente, tem maior capacidade de cuidar dos outros e de si própria, o homem parece ter uma função de "herói-protetor" e provedor do sustento, características fortemente relacionadas à própria condição genética, que dá à mulher o potencial ímpar da maternidade e, ao homem, quase em sua totalidade, maior força física. Tal fato, que parece um jargão de antigos debates, já foi ilustrado em diversas pesquisas 3 .

Além disso, constatamos na prática clínica que muitas consultas frequentadas pelos homens são agendadas por suas esposas, companheiras, mães ou filhas comprovando a natureza que a mulher tem de cuidar, não só de si, mas dos outros também, tornando essa cooperação entre homem e mulher uma simbiose perfeita.

Portanto, o que observamos, é que os caminhos para novas conquistas na melhora de qualidade e expectativa de vida, para homens e mulheres, são multifatoriais, mesclando características específicas de nossa herança genética, com as grandes conquistas do ser humano na esfera industrial, alimentar, analítica, intelectual e relacional, fortalecidas pela  disseminação de informação de qualidade e conhecimento direto às pessoas, respeitando e valorizando sempre as diferenças e individualidades inerentes da natureza humana.

Notas

1. Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE)

2. Instituto Nacional de Câncer (INCA)

3. Cad. Saúde Pública, vol.23, no.3, pág. 565-574, Rio de Janeiro, Março, 2007.