Como assim, Dr. Falci?: A dificuldade para emagrecer, os vícios e os prazeres: o que eles têm em comum?

Como assim, Dr. Falci?: A dificuldade para emagrecer, os vícios e os prazeres: o que eles têm em comum?

Por Renato Falci Júnior*


Quem já tentou emagrecer conhece a enorme dificuldade para chegar ao peso desejado. A obesidade é, sem dúvidas, um grave problema de saúde individual e coletiva neste século. Em 2025, o mundo terá mais de 700 milhões de adultos obesos¹. No Brasil, hoje, mais de 50% da população adulta está acima do peso e um quinto dos adultos está com obesidade². E esses números não param de crescer. 

Até o presente, os mecanismos envolvidos no ganho de peso descontrolado eram pouco claros, limitando seu tratamento. Haja vista o fracasso da maioria das dietas e os resultados insatisfatórios das terapias mais agressivas, como a cirurgia bariátrica. Segundo a Universidade da Califórnia, indivíduos que se submetem a dieta para emagrecer por seis meses perdem apenas 5% a 10% do seu peso inicial, e, nos anos subsequentes, dois terços deles, ganham mais peso do que perderam³.Somam-se a isso os resultados insatisfatórios da cirurgia bariátrica no longo prazo (ainda que superiores às dietas), atingindo pouco mais de 50% de perda do excesso de peso, bem como seus efeitos colaterais como deficiência de vitaminas e nutrientes e mal-estar após determinados tipos de refeições, que impactam significativamente a qualidade de vida. 

No entanto, a neurociência parece que nos dá uma luz para entender melhor esse grande problema e um caminho para enfrentar a dificuldade para emagrecer. 

O estudo do comportamento humano frente aos vícios (addiction - em inglês) teve início em meados do século passado. Por décadas, atribuiu-se esse mecanismo de repetição descontrolada de um ato prazeroso (vício) a um grupo de pessoas consideradas de personalidade fraca ou de formação moral incompleta. Tempos depois, por meio do uso da neuroimagem funcional, que é um método de imagem que permite mapear as áreas cerebrais ativadas em determinados comportamentos, a ciência descobriu que o cérebro humano processa de forma semelhante praticamente todas as formas de prazer.

Independentemente de o prazer ser originado por ingestão de uma substância química (drogas), recompensa financeira, encontro sexual, jogos, compras, pornografia, ingestão de uma refeição ou outra fonte qualquer, ocorre liberação de dopamina - uma substância química que transmite informação aos neurônios - no núcleo acumbente (nucleus accumbens), que é uma pequena região no cérebro responsável pelo prazer. Este núcleo é tão específico para essa atividade que é conhecido como núcleo do prazer.

Uma vez estimulado o núcleo do prazer, independentemente do fator gerador, ocorre a ativação de outros dois centros no cérebro: um centro que memoriza o prazer (hippocampus) e outro que associa o prazer a seu ato gerador, induzindo a sua repetição (amigdala). Portanto, ao experimentar uma sensação de prazer, o cérebro, além de memorizá-la, armazena a forma como ela foi obtida, fixando uma tendência comportamental para repeti-la. Exposto dessa forma, parece que o cérebro monta uma armadilha para que o indivíduo repita incansavelmente o ato prazeroso 4.

Tudo isso funciona muito bem - e é essencial para a sobrevivência do ser humano - até o momento em que o ato que desencadeia a sensação de prazer possa ser repetido de forma fácil ou pouco custosa para o organismo. Nesta situação, ou ainda quando é induzido por algumas substâncias químicas como as drogas, o cérebro é capaz de fazer uma autorregulação na região do prazer, diminuindo o efeito da "substância do prazer", a dopamina. Ou seja, o cérebro humano passa a ficar mais resistente ao efeito prazeroso desencadeado por determinado estímulo. Com isso, as demais regiões encarregadas em repetir o ato gerador do estímulo se hiperativam na tentativa de gerar o mesmo resultado. Nesse momento, o mecanismo de vício (addiction) está instalado.  O mesmo cigarro fumado, o mesmo dinheiro ganho ou o mesmo pedaço de bolo não serão mais capazes de gerar o mesmo nível de prazer ao cérebro humano que eles geravam no início. Ele quer mais e mais e cada vez mais!

A distância entre o ato de prazer e o vício é variável e depende de uma série de fatores como predisposição genética, atos ou substâncias indutoras e capacidade de controle. A facilidade de repetição do ato parece ter papel fundamental, e isso é facilmente observado na alimentação. A ingestão de alimentos sempre gerou essa recompensa no cérebro. Ocorre que, no passado, a obtenção de alimento era acompanhada de grande gasto de energia, o que dificultava sua repetição frequente. Com o avanço tecnológico, a comida tornou-se barata e de fácil obtenção, favorecendo e aumentando exponencialmente a incidência de obesidade.

Não se trata da condenação dos prazeres, visto que além de agradáveis, são fundamentais para a sobrevivência do ser humano. Trata-se de compreender que o cérebro humano parece ter dificuldade em dosar os prazeres, particularmente aqueles obtidos de forma fácil ou por substâncias químicas. O momento da perda do controle racional do prazer parece ser uma linha frágil que, após ser ultrapassada, passa a ter um retorno difícil e custoso. 
E agora? Será que estamos num caminho sem volta? 

O que nos resta, até que se descubra uma forma de mudar essa dinâmica, é treinarmos, desde pequenos, a conter essa aparente tendência do comportamento humano. Como já disse, não se trata de condenar o prazer, mas ter ciência do seu risco e usar, ao máximo, o controle racional enquanto ainda ele é possível. 

No caso específico da prevenção da obesidade, à luz dessas novas evidências, abre-se um caminho para o controle do ganho de peso, que consiste em cortar esse ciclo gerador de prazer, exatamente no momento em que percebemos a tendência ao vício em comida. Ter o hábito cotidiano de se alimentar com moderação, frente a esse novo achado científico, surge como um mecanismo, embora aparentemente desagradável, promissor no controle da obesidade.


Referências 

1.Organização Mundial da Saúde (OMS)
2.Associação Brasileira para Estudo da Obesidade e da Síndrome Metabólica.
3.Dieting does not work. UCLA researchers report, 2007.
4.How addiction hijacks the brain. Harvard Health Publishing, Harvard Medical School, 2011