Novas terapias de tratamento de câncer de pulmão são mais eficientes, mas não uma realidade no Brasil

Novas terapias de tratamento de câncer de pulmão são mais eficientes, mas não uma realidade no Brasil

Segunda parte do IV Fórum de Câncer de Pulmão discute a medicina personalizada e os desafios para que ela seja adotada no país


 

Redação LAL - A aplicação de novas tecnologias no tratamento do câncer é um caminho sem volta. As novas terapias passaram a permitir um tratamento individualizado e personalizado ao considerar a constituição genética de cada indivíduo e a especificidade de cada doença. Fatores genéticos, ambientais e de estilo de vida são agora protagonistas graças à medicina de precisão (ou personalizada), que identifica qual abordagem é mais efetiva para qual paciente ou grupo de pacientes. O que você acabou de ler é sim possível. Mas, infelizmente, ainda não é uma realidade para todos as pessoas que lutam contra um câncer. Com o objetivo de buscar maneiras de tornar a medicina personalizada cada vez mais próxima de todos os brasileiros, o segundo painel do IV Fórum A Nova Cara do Câncer - Pulmão, realizado em Brasília, no último dia 25 de junho, pelo Instituto Lado a Lado pela Vida, reuniu especialistas e deputados federais para discutir o tema.

Cada vez mais a medicina imprecisa, de soluções iguais para necessidades específicas, perde espaço para a medicina personalizada, de soluções exclusivas para pessoas específicas. Faz sentido, somos originais e únicos.  "Há 10 anos, colocávamos todos os cânceres de pulmão em dois grandes sacos: os tumores de pequenas células e os de não pequenas células. A partir disso, tratávamos todos os pacientes da mesma maneira, com a quimioterapia. Hoje em dia, já conseguimos pormenorizar o tratamento, para tentar individualizá-lo. A medicina de precisão representou uma mudança de paradigma no tratamento do câncer de pulmão", explicou o oncologista do Hospital Sírio-Libanês e membro do Comitê Científico do LAL, Fernando Santini, na palestra de abertura do segundo painel.

O desenvolvimento da ciência, com os avanços na genética, na bioinformática e nos biomarcadores, passou a ser possível realizar o mapeamento genômico de uma pessoa, saber as chances que ela tem de desenvolver determinada doença e, quando houver um diagnóstico, conhecer a natureza exata do problema. Os testes moleculares nos tecidos ou proteínas dos órgãos afetados pelo tumor definem os tratamentos mais indicados para cada indivíduo, com a máxima eficácia.

Toda essa evolução permitiu o surgimento da terapia-alvo e da imunoterapia. A quimioterapia consiste em qualquer medicação que entra na veia e vai atuar no corpo inteiro como um todo. Ela não é seletiva, havendo efeitos colaterais para o corpo todo. "Já a terapia-alvo é a definição de um alvo, no caso, uma alteração genética molecular específica naquele tumor e há um comprimido que atua especificamente nessa mutação. A sobrevida é mais alta do que a da quimioterapia e ela é boa para os pacientes não-fumantes. A imunoterapia funciona muito bem para os pacientes tabagistas. Ela consiste em uma vacina que faz com que o sistema de defesa consiga combater os tumores, destruindo os escudos deles. Ela é aplicada em conjunto com a quimioterapia", afirmou o dr. Fernando.

Apesar de tanta evolução trazida pelas novas tecnologias aplicadas à medicina, o atendimento ao paciente com câncer de pulmão ainda apresenta muitas falhas, principalmente no sistema público de saúde. O Sistema Único de Saúde (SUS) apresenta diversos gargalos. Na atenção primária, muitos casos de câncer de pulmão são tratados como tuberculose, o que atrasa muito o diagnóstico. A disponibilidade de radiologia intervencionista no sistema público é muito pequena e, como resultado, a patologia também é muito rudimentar e o tempo para o resultado é muito grande. Em relação ao tratamento, as terapias mais inovadoras ainda não estão disponíveis para a população. Na Saúde Suplementar, há a questão do rol de procedimentos que os planos de saúde precisam cobrir. "Há um atraso na inclusão de procedimentos. A maior parte das drogas orais não são consideradas quimioterapias e precisam estar incluídas no rol. Em muitos casos, o paciente precisa pagar do próprio bolso o sequenciamento genético", colocou o oncologista, que moderou o segundo painel.

Segundo a deputada federal e presidente da Frente Parlamentar Mista de Saúde, Carmen Zanotto, a incorporação de novos insumos estratégicos no SUS esbarra na questão do custo-benefício. "A lei 12.732/12 coloca que a padronização de terapias do câncer deverá ser revista, republicada e atualizada sempre que se fizer necessário para se adequar ao conhecimento cientifico e a disponibilidade de novos tratamentos comprovados. Parte das terapias-alvo já estão comprovadas e quantos pedidos na comissão de incorporação temos de inclusão? O Ministério da Saúde precisa fazer essa revisão", apontou a deputada.

Outro membro do Comitê Científico do Instituto lado a Lado pela Vida, o médico oncologista do Hospital Sírio-Libanês de Brasília, Igor Morbeck, usou o depoimento de uma paciente apresentado em um vídeo (assista aqui) para exemplificar a importância econômica das novas terapias. Segundo ele, é um tema muito complexo, mas de maneira resumida, são quatro os indicadores principais em Saúde. Os mais conhecidos são a análise de custo-benefício e a de custo-efetividade. Os outros dois são mais complexos e geralmente são usados por gestores e economistas.

"A proteína chamada ALK, que comete pacientes jovens e que nunca fumaram, confere agressividade ao câncer de pulmão. Até muito pouco tempo atrás no Brasil, não tínhamos nenhum medicamento anti-ALK. Ter tido acesso a esse medicamento mudou a vida da Keila (paciente do vídeo). O tempo de vida médio era de seis meses. Hoje, ela tem condição de cuidar da filha, de trabalhar e de viajar. O custo-efetividade leva em conta o tempo de vida que o remédio trouxe para o paciente associado a uma redução do absenteísmo no trabalho e nas atividades do dia a dia. Esse cálculo é fundamental e todos os agentes aprovados para o câncer de pulmão são custo-efetivos", destacou Morbeck.

Para o especialista, o gargalo de medicamentos de última geração existe tanto no SUS quanto na saúde suplementar, em parte por causa da tabela do SUS que está desatualizada há muitos anos. A deputada federal e presidente da Frente Parlamentar em Prol da Luta contra o Câncer, Silvia Cristina, destacou que há um grupo de trabalho da revisão da tabela SUS, da qual ela é relatora. "Eu, a deputada Carmen e o deputado Dr. Frederico - que também estava presente na mesa - fazemos parte desse grupo. Há 20 anos a tabela não é revisada e não queremos mais sempre ouvir do Ministério da Saúde que não há dinheiro para nada. Vamos apresentar dados para essa revisão para avançarmos nas políticas relacionadas à saúde", disse.

A poluição ambiental e o câncer de pulmão

Em sua fala, a deputada Carmen Zanotto também citou a possibilidade de diminuição dos tributos para os cigarros produzidos no país. "Sabemos que o tabagismo é ainda a maior causa do câncer de pulmão. Porém temos uma Portaria, a 263 de 23 de março de 2019, que instituiu um grupo de trabalho para avaliar a conveniência e a redução da tributação para os cigarros produzidos no Brasil. O aumento da tributação do cigarro não vai cobrir os custos das despesas com os pacientes com câncer. Mas a redução pode ter como consequência o aumento do consumo do cigarro", afirmou a deputada. A pesquisadora científica do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (USP), Mariana Matera Veras, acrescentou que não há diferença entre os danos causados pelos cigarros mais baratos e os mais caros. "Nas pesquisas experimentais do nosso laboratório usamos os cigarros mais baratos do mercado. Não conseguimos notar nenhuma diferença entre os danos causados", afirmou.

A deputada federal e presidente da Frente Parlamentar em Prol da luta Contra o Câncer, Silvia Cristina, exemplificou a luta travada durante um tratamento contra o câncer com sua história pessoal. "Sou paciente oncológica de câncer de mama. Enquanto eu estava em tratamento, em 2007, eu conseguia tomar minha quimioterapia sentada, mas uma outra paciente nunca conseguia tomar a quimio sentada. Ela precisava sempre estar deitada e me contou que estava em tratamento de câncer de pulmão. Disse que acreditava na cura, mas que nunca tinha fumado. Quem fumava era o marido. Me contou que, quando teve o diagnóstico, o companheiro a abandonou e ela estava enfrentando o tratamento sozinha", relembrou. Silvia destacou que há um projeto de autoria dela em tramitação na Câmara que instituiu uma contribuição social incidente sobre fabricação e importação de artigos fumígenos para financiar programas e ações de saúde destinados à prevenção de males causados pelo fumo.

Já a pesquisadora científica lembrou dos casos de câncer de pulmão que não estão relacionados ao tabaco e é preciso prestar atenção nesse crescimento. "Há casos relacionados com fatores ambientais e ocupacionais. Cerca de 5% dos casos no mundo estão relacionados aos poluentes no ar. 90% das cidades no mundo possuem uma péssima qualidade do ar e saliento que não existe um nível seguro de poluente do ar, embora existam níveis aceitáveis. O risco para câncer de pulmão de quem fica muito tempo em congestionamento é muito maior. E isso também está relacionado com questões socioeconômicas", explicou Mariana. Segundo as pesquisas, ficar entre 3 a 4 horas preso em um congestionamento ou se deslocando é equivalente a fumar de 2 a 3 cigarros por dia.

A realização do IV Fórum A Nova Cara do Câncer - Pulmão reforça que o Instituto Lado a Lado pela Vida está empenhado para incentivar o diálogo entre os profissionais da saúde, os representantes do governo, os pacientes e população brasileira, pois acredita que esse é o caminho para promover mudanças na sociedade e gerar ações efetivas dos órgãos do Governo e centros de referência. As falas dos especialistas, deputados e senadores, os depoimentos e as perguntas do público presente demonstram que o caminho para aumentar o diagnóstico precoce e o acesso a novas terapias para tratamento do câncer de pulmão passa pela multiplicação do conhecimento e melhora das políticas públicas. Mais uma vez fica claro que lado a lado somos mais fortes.

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