Novos caminhos e um novo olhar para o câncer de pulmão

Novos caminhos e um novo olhar para o câncer de pulmão

Desenvolver políticas públicas, parcerias, integração, investir em estudos e pesquisas para o câncer de pulmão, o que mais mata no mundo. Esses são alguns dos muitos pontos abordados no II Workshop Instituto Lado a Lado pela Vida Câncer de Pulmão, realizado no dia 11 no L'Hotel Porto Bay, com a proposta de lançar um novo olhar sobre a doença. O evento abordou o câncer de pulmão além do tabaco, suas causas, diagnóstico e tratamento.

Um dos pontos essenciais para combater a doença é a união de vários setores da sociedade, como destacou a presidente do Instituto Lado a Lado, Marlene Oliveira, durante a abertura do workshop. Ela ressaltou a "importância da continua interlocução entre médicos, instituições, pacientes, indústria farmacêutica". "O que nos une são os pacientes. Por eles trabalhamos e enfrentamos novos desafios", destacou Marlene.

A presidente ainda comentou a importância de entender as novas tecnologias que estão chegando e a medicina personalizada. "Pode ser uma luz".

Ainda na abertura foi feita uma homenagem à Verónica Hughes, paciente de câncer de pulmão que se foi em fevereiro deste ano e que era bastante ativa na luta contra a doença e o tabagismo. Verónica era grande parceira do Instituto, tendo participado do 1º Workshop de câncer de pulmão, realizado em 2016. Seu esposo Marcelo Nepomuceno, com quem foi casada por 33 anos, recebeu a homenagem do Instituto para Verónica, com a apresentação de um vídeo com suas falas inspiradoras.

Câncer bastante agressivo

Tratando do cenário do câncer de pulmão no Brasil e no Mundo, Marcelo Cruz, oncologista clínico brasileiro atualmente trabalhando na Northwestern University, em Chicago -EUA, fez seu alerta: "o câncer de pulmão, mata mais que os cânceres de colo retal, mama e próstata juntos. E os casos de morte por câncer de pulmão entre não-tabagistas superam as mortes por câncer de pâncreas, colo de útero e próstata.

O moderador do evento explicou que o câncer de pulmão é o que mais mata - anualmente há 1 milhão e 800 mil novos casos, e 1 milhão e 500 mil mortes. Conforme o oncologista, a maioria morre em menos de um ano; e 17% em 5 anos. "Entre os que descobrem no estadio 4, apenas 3 a 4% têm sobrevida de 5 anos".

Marcelo Cruz informou ainda evento que de cada 10 pacientes, apenas 2 tem diagnóstico precoce - e a maioria de forma incidental. "O paciente está com pneumonia, descobre o câncer por acaso fazendo exames. Ou vai no cardiologista que pede raio X de tórax e descobre o câncer".

Ele apresentou estudos mostrando o aumento da doença em não tabagistas. "Um estudo da década de 1990 mostrava que essa incidência era de 9 a 10%. Em 2011 a 2013, 20% dos casos de câncer de pulmão eram sem relação com o tabagismo". Entre os outros fatores ele cita os asbestos, radônio e poluição ambiental.

Radônio, principal causa em não fumantes

Yula Merola, colaboradora do Projeto de Pesquisa de Câncer e Radiação Natural, Coordenadora do Curso de Farmácia da Faculdade Pitágoras de Poços de Caldas, explicou que o radônio é a segunda causa de câncer de pulmão - a primeira em não fumantes. "Em algumas regiões do mundo é responsável por 20% dos casos de pulmão".

A pesquisadora citou ainda que o radônio tem como fontes os gases do solo, água de poço e materiais de construção. "Essa é uma discussão que temos hoje, os materiais de construção como emissores de radônio. Um grande emissor é o granito, mármore, que usamos muito em residências".

O radônio é um gás radioativo liberado durante o decaimento natural de tório e urano. "Temos no Brasil um solo rico em tório e urano".

Conforme Yula, esse gás atinge principalmente casas mais antigas, entrando pelas frestas e sendo inalado pelas pessoas. "Quando tem partículas grandes de gás radônio, elas ficam presas na cavidade nasal. As partículas menores conseguem chegar nos tecidos pulmonares".

Lembrando que os Estados Unidos e a Europa têm fatores de definição de medição de radônio, ela disse que não há no Brasil. "Não existe levantamento nacional. Precisamos de políticas de investigação para mapear e incentivo à construção de edifícios resistentes ao gás".

Poluição ambiental: exposição e vulnerabilidade

O professor titular de Patologia da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo e diretor do Instituto de Estudos Avançados da USP Paulo Hilário Nascimento Saldiva citou dois pontos que precisam ser considerados quando se trata de doenças causadas por poluição ambiental: exposição e vulnerabilidade. "Há estudos indicando que a poluição do ar é considerada nível de evidência 1A para câncer. Com certeza a poluição é um evento indutor de câncer".

Para avaliar os níveis de exposição, o professor explica que é preciso considerar onde a pessoa mora, hábitos, viés da exposição, tempo no tráfego. "O nível de exposição de quem está no tráfego é em média três vezes maior do que a 200 metros dele".

Saldiva comentou um estudo preliminar, analisando 200 casos, que especificou o coeficiente tabágico do trânsito e concluiu que cada duas horas no trânsito corresponde a dois cigarros.

Diante desses problemas, ele propõe um debate que envolva a sociedade. "Faltam políticas públicas. Precisamos de um debate com boa ciência, litigância e esclarecimento", diz. "É essencial ter informação, educação e mobilização da sociedade em seu benefício".

Boa notícia

A pesquisadora Científica (Pq-IV) do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo, Mariana Matera Veras, trouxe uma boa notícia em sua apresentação: dois estudos indicando que talvez a ingestão de vitaminas do Complexo B ajudem a diminuir os efeitos da exposição à poluição.

"O PM 2.5 (material particulado composto de partículas finas suspensas no ar; poluição do ar) provoca alteração do DNA. As vitaminas podem reverter esses efeitos". Mariana esclarece que é um estudo experimental, que ainda precisa de mais pesquisa, mas pode ser uma luz.

"O melhor seria diminuir os níveis de poluentes", lembra a pesquisadora, citando que São Paulo tem de duas a três vezes o nível de poluição que seria aceitável. "5% das mortes por câncer de pulmão no mundo são por poluição do ar".

Ela avisa que não é para sair tomando vitaminas, mas que talvez uma alimentação rica nessas vitaminas possa proteger um pouco mais desses efeitos.

O risco no ambiente de trabalho

Os perigos que existem no ambiente de trabalho que podem contribuir para o desenvolvimento do câncer de pulmão foi o tema do advogado mestre em Direito, Estado e Constituição pela Universidade de Brasília (UnB) João Gabriel Lopes. Ele usou como exemplo um caso em que atua, Caetité, com trabalhadores de mineração.

João Gabriel enumerou várias falhas de segurança e inúmeros riscos da exposição ocupacional dos trabalhadores a radionuclídeos e ao radônio. "O trabalhador deve ter proteções especiais".

O advogado citou exemplos de falhas em atos de prevenção que deveriam existir, como na troca de vestuário, que possibilita que o trabalhador leve a contaminação para sua casa e à comunidade. Também relatou casos de terceirizados atuando sem Equipamentos de Proteção Individual (EPI) e sem treinamento. "Os princípios do direito ambiental do trabalho são: proteção, precaução, prevenção, poluidor - pagador - responsabilidade objetiva do empregador e acesso à informação".

Conforme João Gabriel, o Ministério Público do Trabalho ajuizou ação civil pública e os advogados do Sindimine ações de indenização individual. "A preocupação é com a comunidade geral. Passamos para o Ministério Público Federal".

Custo-efetividade do rastreamento

Abordando o tema rastreamento do câncer de pulmão, o médico pneumologista José Pereira Rodrigues chama atenção para a comparação de resultados entre raio X do tórax e a tomografia. Ele aponta que estudos feitos de rastreamento com tomografia demonstraram diminuição do risco de mortalidade.

Entretanto, o médico lembra que é preciso sempre considerar a custo-efetividade para implementar. "Seria interessante para um programa de rastreamento em qualquer lugar do mundo que os preços praticados da tomografia fossem menores que os atuais", diz. "Na avaliação de diversos estudos conclui-se que não se deve implementar programa de rastreamento sem que uma análise de custo efetividade seja feita de acordo com a realidade de cada lugar".

Outro ponto de análise é o intervalo entre uma tomografia e outra. O médico lembra que nos Estados Unidos são realizadas anualmente. "Há vários outros estudos com pacientes negativos no primeiro exame demonstrando que se pode fazer a cada 2 anos". Ele considera que essa ação melhoraria também o custo total da implementação. "O acompanhamento bienal trouxe taxa de detecção um pouco menor, interessante num contexto macro". Já um intervalo maior de dois anos, segundo levantamentos, seria contraindicado.

José Pereira ressalta que é contraindicado o rastreamento de tomografia com carga convencional - precisa ser com baixa carga. Ele cita ainda pontos essenciais: treinamento de radiologistas pelo protocolo internacional, equipe multidisciplinar e integração com programa de cessação do tabaco.

Novos tratamentos, novos desafios

Ganhos expressivos da medicina personalizada para pacientes que são diagnosticados com câncer de pulmão avançado, estadio 4, foram destacados pelo oncologista Marcelo Cruz. Ele explicou que até o ano 2000 só se tinha conhecimento de dois tipos de câncer de pulmão: de pequenas células e não pequenas células - este último com 80 a 90% dos casos.

"Para esse tipo de não pequenas células e com a doença avançada até 10, 15 anos o tratamento padrão era com quimioterapia. A chance de resposta de reduzir tumor 20% e sobrevida mediana 8 meses", informa. "Esse ainda é o tratamento padrão no SUS".

A mudança ocorreu com o entendimento de subtipos de câncer de pulmão e as mutações que levam as células do câncer a se desenvolver e se espalhar. Surgiram então remédios que podem combater as células com mutações que dirigem o tumor, a terapia alvo ou medicina personalizada.

Marcelo Cruz diz ainda que outra novidade que veio para mudar o tratamento é a imunoterapia. "Até hoje tenta-se combater a célula do câncer com quimioterapia ou, no caso do câncer com mutação, usando terapia alvo. A imunoterapia faz algo a mais: fortalece o sistema imunológico para atacar o câncer. Não está mais atacando o câncer diretamente, mas estimula células de defesa para atacar o câncer".

As barreiras no tratamento

O coordenador da Oncologia Clínica do Hospital de Câncer de Barretos - divisão Cabeça/Pescoço e Tórax, Pedro De Marchi, falou de seis barreiras para o tratamento do câncer de pulmão.

A primeira barreira é o diagnóstico. "Uma notícia sempre difícil". A segunda barreira, para o médico, é o prognóstico de câncer de pulmão, já que esse é o tumor responsável por mais mortes.

A terceira barreira às vezes surge de onde deveria vir o suporte: família e amigos. Embora Pedro considere que a regra ainda é que essa rede sirva de auxílio, às vezes pode influenciar negativamente, estimulando a não fazer o tratamento devido. "São as exceções", destaca.

Os efeitos colaterais são considerados pelo oncologista como a quarta barreira - ele lembra que não há tratamento isento de efeitos. A dificuldade do acesso às drogas é relatada como a quinta barreira. "Não só as de última geração, mas acesso a instituições especializadas".

A sexta barreira, Pedro De Marchi considera a mais difícil, quando o paciente não tem mais condições clínica de ser tratado e terá tratamento paliativo exclusivo. "É a conversa mais difícil que a gente tem com o paciente".

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