Medicina personalizada pode ser aplicada também na detecção precoce do câncer

Medicina personalizada pode ser aplicada também na detecção precoce do câncer

Segunda parte do III Fórum de Medicina Personalizada discute ampliação do uso das novas tecnologias para aumentar diagnóstico precoce e prevenir a doença


Redação LAL - A medicina personalizada (ou de precisão) já é usada no tratamento de diversos tipos de câncer. Mas é possível usá-la para prevenir a doença? A segunda parte do III Fórum A Nova Cara do Câncer - Medicina Personalizada, realizado pelo Instituto Lado a Lado pela Vida (LAL), no dia 6 de agosto, na Fiocruz, em Brasília, discutiu como a medicina de precisão e as novas tecnologias podem expandir o olhar, seja na detecção precoce ou no tratamento.

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O oncologista e membro do Comitê Científico do LAL, Igor Morbeck, abriu o segundo painel "É necessário repensar o câncer" com um panorama sobre a neoplasia e os desafios a serem enfrentados. "No século 21, atingimos um ápice do conhecimento de uma neoplasia, mas mesmo assim ainda há inúmeros desafios para saber como lidar com essa doença, uma das mais desafiadoras de todo o planeta", informou o oncologista, que foi moderador do painel.

Segundo ele, os dados mostram que a incidência de vários tipos de tumores vem crescendo no mundo: são mais de 15 milhões de novos casos diagnosticados por ano. "No Brasil, são 600 mil novos casos a cada ano, segundo dados do Instituto Nacional de Câncer. Dados recentes mostram que pelo menos um terço de todos esses tumores são preveníveis. Outro terço são casos passíveis de diagnóstico precoce. Sobrando 30% de tumores, que eventualmente crescem de maneira silenciosa, e podem gerar metástases e que, realmente, são desafiadores. São esses casos que pedem um tratamento personalizado", pontuou Igor, lembrando que nenhuma pessoa deve se culpar por ter um câncer.

O câncer de um indivíduo não é igual ao de outro. Mesmo em um paciente, os tumores não são homogêneos e, é por isso que a medicina personalizada e as novas tecnologias são tão importantes no diagnóstico e tratamento da doença. Para analisar os dados coletados em biópsias, o médico patologista é essencial. "Se antigamente, eles só tinham o microscópio e alguns corantes para fechar um diagnóstico. Hoje em dia, o profissional tem várias reações e ferramentas moleculares disponíveis, que nos permite entender em profundidade um tumor", destacou o moderador da mesa.

O médico patologista e presidente da Sociedade Brasileira de Patologia, Clóvis Klock, chamou a atenção para um problema enfrentado no Brasil nessa área. "Muitos não conhecem a função do patologista no diagnóstico de doenças e do câncer. Temos uma falta de patologistas no Brasil. São cerca de 2 mil médicos para atender todo o país. Além disso, não conseguimos formar patologistas e as novas tecnologias não estão disponíveis nas residências médicas da área. Isso precisa ser resolvido com urgência. O Sistema Único de Saúde paga 24 reais para um exame diagnóstico de câncer", frisou Clóvis.

Para o oncologista clínico e pesquisador da Fiocruz/DF, Sandro J. Martins, a pesquisa é um agente crucial no rastreamento do câncer. "A genética explica parte dos casos de câncer. Mas uma grande maioria de casos tem relações que ainda não conhecemos. Estamos aprendendo como o ambiente modifica o cenário e permite o surgimento da doença. Os grupos de pesquisa colaboram compartilhando o material genético dos países para possibilitar um maior entendimento das doenças. Em relação a genética, há um desafio. Um paciente faz e leva o resultado de um estudo genômico para o médico. Mas o conhecimento dos profissionais, em alguns casos, ainda é insipiente, tanto no sistema público quanto no privado", colocou Sandro.

A visão da indústria farmacêutica na prevenção e tratamento do câncer ficou por conta da presença do jornalista e diretor da INTERFARMA, Octávio Nunes, no segundo painel. Segundo ele, os investimentos em pesquisa e desenvolvimento de novos medicamentos continuam crescendo. Em 2024, os investimentos devem chegar a 204 bilhões de dólares. Os dados apresentados pelo diretor da INTERFARMA mostraram que entre os anos de 1996 e 2000, o lançamento de medicamentos oncológicos representavam apenas 11%. Já entre 2001 e 2015, eles passaram a representar 28% dos lançamentos. "As pesquisas avançam. Cerca de 700 medicamentos para tratamento oncológico estão em estágio avançado de desenvolvimento. Todas as 14 inovações lançadas em 2017 foram para terapias direcionadas. Para a indústria farmacêutica, a medicina personalizada é um caminho sem volta. Pelos benefícios e pela confiança para a prescrição do tratamento que ela traz para o paciente e para os médicos. Além disso, menos recursos serão usados em tratamentos mais efetivos", ressaltou Octávio.

Linha de cuidados

A última parte do III Fórum de Medicina Personalizada foi um debate sobre a construção de uma linha de cuidados para o câncer, com moderação do oncologista e membro do Comitê Científico do LAL, Rodrigo Guindalini, que contou com a presença de Paulo Roberto Socha, chefe de gabinete do senador Izalci Lucas; Frederico Borges, advogado e coordenador da Associação Brasileira de Planos de Saúde (ABRAMGE); Maria Inez Gadelha, oncologista clínica e membro da Comissão Nacional de Incorporação de Tecnologias no SUS (CONITEC), além de Sandro J. Martins e Clóvis Klock.

Hoje no Brasil, 70% dos brasileiros usam o Sistema Único de Saúde (SUS) e cerca de 47 milhões utilizam a saúde suplementar, ou seja, possuem um plano de saúde. Para o representante da ABRAMGE, o paciente precisa estar no centro dos cuidados. "O plano de saúde precisa olhar para o paciente no centro do cuidado. Não podemos esquecer que o sistema é único e todos estamos nele, sejam os pacientes que usam o público, a saúde suplementar ou o serviço privado. O plano de saúde tem o olhar do custo, mas também precisa levar em consideração o paciente. Se cuidarmos bem do acesso e do cuidado, é possível achar um caminho de equilíbrio", afirmou Frederico.

O advogado trouxe para o debate a questão sobre o valor cobrado pelos planos de saúde relacionada à previsibilidade de uma pessoa desenvolver determinada doença. "Será que eu posso ter um olhar diferente para aquele paciente com probabilidade genética de desenvolver uma doença? Um seguro de saúde hoje pode cobrar mais de uma pessoa que pratica esportes radicais, por exemplo. O mesmo não é possível em um plano de saúde. Os custos são divididos igualmente entre todos, mesmo que um deles represente maior risco", apontou Frederico.

Para a oncologista Maria Inez Gadelha, é preciso deixar claro que o resultado de um exame não significa obrigatoriamente que a pessoa vai desenvolver uma doença. "A medicina personalizada é o avanço da tecnologia unido com a inteligência artificial. Temos que deixar muito claro o que ela é para que a discussão possa ocorrer e frisar que um exame não vai significar doença obrigatoriamente. O fato de vários pacientes terem o mesmo tumor e a mesma anormalidade genética não significa que terão a mesma reposta terapêutica", pontuou a médica oncologista Maria Inez Gadelha.

Os medicamentos de última geração têm um papel importante na medicina personalizada. Mas normalmente eles chegam ao mercado com valores muito altos, que grande parte dos pacientes não pode arcar. "O custo desses medicamentos é ascendente, devido ao próprio processo de desenvolvimento. O desenvolvimento vem para nichos, o que dá a impressão de que ele é eficaz apenas para determinada doença com certa especificidade. Mas o mercado potencial dos medicamentos pode ser maior e a ausência de mecanismos de revisão de preços dessas drogas faz com que a gente cristalize preços exorbitantes", colocou o oncologista e pesquisador da Fiocruz, Sandro Martins.

Para Maria Inez, há uma consequência do valor dos novos medicamentos que influencia no enfrentamento da doença como um todo. "No sistema hoje, vive-se a falta de medicamentos essenciais e que efetivamente curam o câncer. Eles estão deixando de ser produzidos por uma questão de mercado. Ficaram muito baratos. É preciso ter uma reflexão moral e ética sobre esse ponto", afirmou. Para o moderador do debate, os medicamentos extremamente caros podem ser direcionados para poucos, mas representam uma vitória terapêutica. "A melhor maneira de provar que um medicamento é eficaz é usá-lo com paciente metastático porque você dispõe de pouco tempo para provar que ele tem efetividade. Quando vamos para a área curativa, o tempo é muito maior", colocou Guindalini.

A inclusão de novos medicamentos e novas terapias no sistema de saúde brasileiro sempre esbarra no custo que eles representarão. Essa é uma questão que precisa ser discutida e formas de superá-la precisam ser pensadas. Para Clóvis Klock, é preciso ter em mente que até mesmo a medicina socializada do Reino Unido tem um limite. "O dinheiro é finito e precisa ser bem usado. Sem uma revisão constitucional, não vamos conseguir atender a todos. Precisamos de uma nova maneira de pensar a saúde do brasileiro", concluiu Klock.