Gestão da saúde precisa melhorar para tornar a medicina personalizada acessível no Brasil

Gestão da saúde precisa melhorar para tornar a medicina personalizada acessível no Brasil

O III Fórum de Medicina Personalizada discutiu os avanços tecnológicos na área e como torná-los uma realidade na saúde pública e suplementar


Redação LAL - A Medicina Personalizada é um caminho sem volta. Mas, para que seja uma realidade para o brasileiro, a gestão do sistema público de saúde precisa ser revista e melhorada. Esse foi o tom das discussões do III Fórum A Nova Cara do Câncer - Medicina Personalizada, realizado pelo Instituto Lado a Lado pela Vida (LAL), no dia 6 de agosto, na Fiocruz, em Brasília. Durante o evento, oncologistas, representantes da Saúde Suplementar, de laboratórios de diagnósticos, da indústria farmacêutica, deputados federais e representantes de senadores discutiram a inovação e o acesso ao diagnóstico precoce e tratamento de câncer. Cerca de 200 pessoas estiveram presentes no Fórum e compartilharam suas dúvidas e esperanças com os palestrantes.

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Desde 2015, o LAL realiza um trabalho de advocacy junto aos parlamentares do Congresso Nacional para influenciar as políticas públicas voltadas à saúde do brasileiro, visando a melhoria do sistema e a incorporação das novas tecnologias e tratamentos no sistema público de saúde. "A Medicina Personalizada já transformou a Medicina no mundo. E deve fazer o mesmo no Brasil, tanto no Sistema Único de Saúde (SUS) como na Saúde Suplementar. Nosso objetivo é ajudar a escrever uma nova realidade para a saúde do brasileiro e a realização desse fórum é uma das maneiras que encontramos para mudar o sistema", afirmando a presidente do LAL, Marlene Oliveira, em seu discurso de abertura do evento, pedindo aos participantes que se tornassem replicadores do conteúdo discutido durante todo o dia.

Para o chefe de gabinete do senador Izalci Lucas, que é presidente da Frente Parlamentar de Ciência, Tecnologia e Inovação, Paulo Roberto Socha, é preciso melhorar a gestão dos recursos. "Hoje falta um controle das unidades básicas de saúde. É possível pegar o mesmo medicamento em diferentes unidades porque elas não se comunicam. O que falta é uma palavrinha mágica chamada gestão", afirmou durante a sessão solene de abertura. Socha também pediu para que todos os presentes participassem ativamente das discussões que ocorrem no Congresso Nacional sobre a saúde pública no país.

Já a deputada federal Tereza Nelma, uma ex-paciente oncológica, destacou a importância de melhorar e aumentar o diagnóstico precoce da doença em seu discurso. "É possível se curar de um câncer, mas o diagnóstico precisa ser no início. O diagnóstico precoce é importantíssimo na batalha", afirmou, lembrando que no país os pacientes oncológicos enfrentam diferentes realidades dependendo da região que moram.

O primeiro painel do Fórum deu para o público uma visão geral sobre a medicina personalizada (ou de precisão), conhecimento que foi aprofundado na segunda parte do evento. A ex-senadora e atual secretária de Relações Federativas e Internacionais do Rio Grande do Sul, Ana Amélia Lemos, iniciou o painel, destacando qual é o impacto da previsão da Organização Mundial de Saúde (OMS) para 2030, quando o câncer deve se tornar a doença que mais mata no mundo. "A medicina personalizada é o futuro. Nos EUA, há uma empresa trabalhando com medicamentos biológicos para o tratamento do câncer. A esperança é que eles tenham uma capacidade maior para tratar e curar a doença", colocou Ana Amélia.

Outro ponto tocado pela ex-senadora foi a necessidade da prevenção e do diagnóstico de câncer, bandeiras defendidas pelo LAL desde sua fundação em 2008. "Muitos exames são feitos e as pessoas nunca pegam os resultados. Além disso, há exames que são feitos e não são necessários. Tudo isso é dinheiro jogado fora. Os exames precisam ser mais acurados e precisamos identificar precocemente a tendência ou não de termos uma doença. E é aqui que a medicina personalizada pode ajudar", disse Ana Amélia, que foi relatora do então projeto da Lei dos 60 dias, que determina que o tratamento oncológico deve ser iniciado no prazo máximo de 60 dias após o laudo patológico, e da lei da reconstrução mamária, que prevê que a cirurgia reconstrutora seja feita de forma imediata quando possível.

A deputada federal e presidente da Frente Parlamentar em Prol da Luta contra o câncer, Silvia Cristina, chamou a atenção para o fato da lei de reconstrução mamária (Lei 13.770/2018) não ser respeitada. "Já temos a lei que garante a reconstrução mamária para as vítimas do câncer de mama, mas ela não é cumprida. A luta agora é garantir esse direito", afirmou Silvia Cristina, ex-paciente oncológica de câncer de mama, que levou 10 anos para fazer a reconstrução. Além disso, a deputada frisou que os parlamentares precisam discutir novas leis em relação ao câncer no âmbito de garantir os tratamentos e exames mais avançados para os pacientes oncológicos "Precisamos avançar ainda mais com as leis em relação ao câncer. A medicina personalizada traz melhorias, mas precisa ser efetiva e estar à disposição para todos", ressaltou em sua participação no evento.

As consequências psicológicas que o diagnóstico e o tratamento de um câncer trazem para um paciente também foram discutidas durante o fórum. Para a presidente da Associação Brasileira de Psiquiatria e sexóloga, Carmita Helena N. Abdo, elas precisam ser olhadas com atenção. "O câncer tem um efeito sobre a intimidade ou atividade sexual dos pacientes. A doença atinge o paciente no campo físico e na intimidade com o(a) parceiro(a)", colocou a psiquiatra. Além disso, segundo ela, alguns medos impedem o diagnóstico precoce da doença. "Os homens têm medo de serem diagnosticados com câncer de próstata por causa da perda da libido ou de sentir dor. Por isso, muitas vezes eles negligenciam a própria saúde. O maior investimento que podemos fazer hoje em relação ao câncer é o diagnóstico precoce", explicou Carmita.

A participação dos oncologistas e membros do Comitê Científico do LAL, Marcelo Cruz e Rodrigo Guidalini, no primeiro painel trouxe uma visão mais técnica e prática de como a medicina personalizada está sendo aplicada no diagnóstico e tratamento do câncer. "A medicina personalizada é uma disrupção biotecnológica. A disrupção chegou a Saúde e nossa adaptação precisa ser rápida. A medicina de precisão é a evolução da medicina atual para estratégias mais eficientes de prevenção, diagnóstico e tratamento", esclareceu Marcelo, que trabalha na unidade de São Paulo do Hospital Sírio Libanês.

A biópsia líquida, que detecta o câncer pelo sangue e é menos invasiva que a tradicional, foi dada como exemplo pelo oncologista como algo da medicina de precisão que já está sendo usado no Brasil. "A biópsia líquida vai nos ajudar na detecção precoce. Tudo indica que o diagnóstico será super precoce no futuro à medida que novas inovações forem sendo incorporadas à medicina. Neste momento, ela está disponível para doença metastática. Está sendo avaliado, se esse exame pode diagnosticar a volta do câncer melhor do que os exames de imagem", afirmou Marcelo, frisando a importância de profissionais de tecnologia participarem das discussões sobre medicina personalizada.

O coordenador do Centro de Genética do Grupo CAM e do Centro de Oncologia do Hospital Português/CLION, Rodrigo Guindalini, ressaltou em sua fala que o Brasil já tem estrutura para a medicina de precisão. "Temos condições, inclusive no Sistema Único de Saúde (SUS), mas falta um projeto e comprometimento para que ela esteja disponível em larga escala", frisou o oncologista. Em relação à testagem genética, segundo ele, acreditou-se que a decodificação do primeiro genoma traria todas as respostas em relação às doenças, mas o assunto era complexo demais. "Quando se fala em testagem genética também se tem a ideia de que o custo é muito alto. Isso foi verdade quando se decodificou o primeiro genoma. Mas, em 2018/19, o valor do sequenciamento do DNA de uma pessoa caiu para cerca de mil dólares. É esse barateamento do valor que permite que ele seja usado na nossa prática clínica", explicou.

Sabendo que o sequenciamento de DNA pode ajudar na detecção de doenças, podemos perguntar se ele deve ser realizado com toda a população. Mas, para Rodrigo Guindalini, a testagem genética deve ser feita com populações específicas. "A testagem genética deve ser realizada com pessoas de alto risco, ou seja, aquelas que tiveram casos de câncer em pessoas jovens na família. Em uma família, você pode identificar que uma mulher pode ter 85% de chance de ter um câncer de mama. E essa mulher não pode entrar no programa de prevenção com 50 anos, se ela tem 50% de chance de ter o tumor antes dessa idade. O programa precisa ser outro para pessoas com probabilidades diferentes de desenvolver a doença", colocou Guindalini, trazendo o caso de Angelina Jolie como exemplo, que realizou uma mastectomia dupla preventiva após um exame detectar a mutação nos genes BRCA1 e BRCA2, que aumenta consideravelmente a chance de uma mulher desenvolver câncer de mama e de ovários.

A Organização Mundial de Saúde (OMS) tem uma lista de exames essenciais para tratar e prevenir doenças. Recentemente, o órgão lançou a segunda versão desse documento, que passou a incluir o câncer entre as doenças. Doze testes foram incluídos para detectar tumores malignos e determinar características moleculares de cada um. "A OMS lançou uma lista de exames essenciais para a detecção do câncer. Em alguns casos, exige-se o teste genético. E como o SUS não garante isso para a população brasileira?", finalizou Guindalini.

O III Fórum de Medicina Personalizada continuou na tarde do dia 6 de agosto com mais um painel, onde se discutiu como a medicina de precisão pode ajudar a detectar precocemente a doença, e uma mesa de debate sobre como inclui-la em uma linha de cuidados para a doença.