"Cinco problemas tratáveis são responsáveis por 90% dos casos de AVC", afirma neurologista

"Cinco problemas tratáveis são responsáveis por 90% dos casos de AVC", afirma neurologista

Segundo a neurologista Letícia Rebello, que participou do painel de discussão do II Fórum sobre Doenças Cardiovasculares, realizado em Brasília, as doenças cerebrovasculares são a segunda causa de morte no país e primeira causa de incapacidade. "Durante anos o AVC foi negligenciado. Hoje é uma epidemia e deve ser tratado como tal", afirmou em sua apresentação.

O problema também tem aumentado entre pessoas mais jovens. Apesar de sua manifestação muitas vezes silenciosa, os fatores de risco responsáveis pela maior parte dos AVCs podem ser diagnosticados e tratados. "Cinco problemas tratáveis são responsáveis por 90% dos casos de AVC: diabetes, hipertensão, colesterol, tabagismo e arritmia".

A neurologista também destacou a importância do atendimento rápido para minimizar sequelas do evento. "Tempo é cérebro. Quanto menor o tempo entre a manifestação do sintoma e o tratamento, menos sequelas". Outro problema, segundo ela, é a dificuldade de acesso. "Somente 1% dos pacientes que teriam indicação para receber tratamento de AVC recebem", informou.

Outra situação em que o tempo é decisivo é na ocorrência de um infarto. Marcelo Cantarelli, cardiologista intervencionista da Sociedade Assistencial Bandeirantes, explicou que as chances de sobrevivência e a gravidade das sequelas dependem do tempo que se leva para iniciar o procedimento, que pode ser angioplastia primária - introdução de um cateter provido de um balão em sua extremidade, até o local obstruído, permitindo assim, o restabelecimento do fluxo de sangue - ou trombolítico - administrados de forma injetável através de uma veia no braço.

Segundo ele, a evolução da cardiologia ajudou a reduzir a mortalidade cardiovascular, no entanto, é preciso diminuir o tempo que o paciente leva para chegar ao hospital, assim como o tempo que o atendimento é iniciado. "A primeira atitude de tratamento do infarto quem toma é o paciente. Mas como a pessoa vai procurar ajuda se ela não sabe que o que ela está sentindo é infarto? Aí entra a educação", destacou o especialista.

A educação em saúde, tema recorrente em todos os debates do evento, também teve sua defesa na voz do subsecretário de gestão de pessoas na Secretaria de Educação do Distrito Federal, Isaías Aparecido da Silva. Em sua fala no Fórum, ele relatou a vivência da própria Secretaria, que teve que trabalhar formas de promover saúde entre os funcionários devido ao alto número de afastamentos por doença. De acordo com levantamento feito, no último ano foram 50 mil licenças médicas.

Para reduzir esse número alarmante, foram tomadas ações focadas em prevenção, como o remanejamento de servidores para escritórios próximos de suas casas, pensando em aumentar a qualidade de vida. "Nós estamos trazendo o servidor para o problema e não simplesmente jogando o problema para ele. Queremos juntos pensar em formas de resolvê-los", afirmou o subsecretário.

Prevenção e Saúde Privada

A prevenção também tem ganhado espaço no sistema privado de saúde. Karla Santa Cruz, diretora de normas e habilitação da ANS (Agência Nacional de Saúde Suplementar), defendeu investimentos focados em prevenção para promover saúde e diminuir os custos do sistema. "Com o envelhecimento da população, aumento das doenças crônicas não transmissíveis, os gastos em saúde aumentaram. Em vez de investir em prevenção, estamos investindo em tratamento dos fatores de risco".

Segundo dados apresentados, se gasta, ao ano, 223 bilhões de dólares com o alcoolismo, 157 bilhões de dólares com o câncer e 147 milhões de dólares com a obesidade.

Educação no campo

"Quando começam as estradas de terra, terminam as políticas públicas de saúde no Brasil", afirmou a coordenadora de programas e projetos na área de saúde do Serviço Nacional de Aprendizagem Rural (Senar), Deimiluce Lopes. Para ela, é preciso mudar a forma como comunicamos a saúde para a população rural e democratizar as informações.

Longe dos centros urbanos, o acesso à rede de cuidados é limitado, assim como às informações. "Para se ter uma ideia, o consumo de vegetais e hortaliças é menor no meio rural em comparação com o urbano", isso, segundo ela, pode ser resultado de uma educação em saúde incipiente. "O nosso compromisso com o Instituto Lado a Lado tem sido esse, de levar o conhecimento para esses lugares".

Na mesma batida: pacto pela saúde do coração

Marlene Oliveira, presidente do Instituto Lado a Lado pela Vida, encerrou os debates reforçando o compromisso de todos para reduzir o número de mortes por doenças cardiovasculares no Brasil. Ressaltou a importância de dar continuidade à interlocução entre os diversos setores, de ampliar as campanhas de prevenção e criar centros de referência para atender e orientar o paciente cardiovascular. Além disso, defendeu a continuidade deste diálogo, com a realização da terceira edição do Fórum no próximo ano, avançando nas questões que foram discutidas no evento.