Falta de informação ainda é obstáculo para prevenção e diagnóstico da Insuficiência Cardíaca

Falta de informação ainda é obstáculo para prevenção e diagnóstico da Insuficiência Cardíaca

A insuficiência cardíaca, ou doença do coração fraco, é a consequência final de qualquer doença do coração e ainda é desconhecida por grande parte da população brasileira. A falta de acesso à informação sobre a enfermidade é um dos obstáculos a serem superados na prevenção e diagnóstico adequado da doença. Na manhã da segunda-feira (25), a IC foi tema do 1º Seminário Coração Fraco, realizado pela Folha de S.Paulo e patrocinado pela farmacêutica Novartis, com o apoio do Instituto Lado a Lado pela Vida e da Rebric (Rede Brasileira de Insuficiência Cardíaca).

A falta de informação e o impacto econômico da IC foram os temas da primeira mesa do Seminário, conduzido e mediado pela jornalista especializada em saúde, Claudia Collucci, que contou com a participação da fundadora e presidente do Instituto Lado a Lado pela Vida, Marlene Oliveira. Segundo uma pesquisa realizada pela Ipsos a pedido da Novartis, 62% da população do país desconhece a insuficiência cardíaca. "Gastamos cada vez mais em tratamento da insuficiência cardíaca, mas precisamos falar em prevenção e promoção da saúde. Se investirmos em medidas preventivas, vamos evitar hospitalizações e custos mais altos", afirmou a presidente do Instituto. Marlene também destacou que o médico precisa estar preparado para informar o paciente sobre o que é uma doença crônica. "O paciente precisa se apoderar do tratamento. Além disso, a prevenção e a promoção da saúde são responsabilidades de todos nós", destacou.

A falta de informação também é um problema apontado por pacientes. Aos 43 anos, o funcionário do setor administrativo do Hospital do Coração, Everaldo da Silva Lisboa, convive com a doença desde 2011, ano que sofreu um infarto. "Eu era uma pessoa saudável, quando tive o infarto. A insuficiência cardíaca foi uma consequência e eu precisei me adaptar à nova realidade. Não tinha conhecimento prévio da doença, até ela passar a fazer parte da minha realidade e hoje sou um multiplicador de informação", contou Everaldo, que acredita que eventos como este são importantes para informar e alertar a população sobre a IC.

Para o presidente da Rede Brasileira de Insuficiência Cardíaca, Manoel Canesin, estamos enfrentando uma epidemia. "Temos uma epidemia ignorada pelos médicos, pelo governo, pelos pacientes e pela mídia. Precisamos trabalhar muito no estágio inicial da doença, para que o paciente entenda e consiga bloquear a evolução dela e ter mais qualidade de vida", afirmou Canesin. Estima-se que a doença afete cerca de 3 milhões de brasileiros e a incidência é maior em pessoas do sexo masculino, com mais de 65 anos.

A IC consome cerca de 22 bilhões de reais por ano no Brasil. "O impacto econômico da doença é brutal. No Brasil, 2% desse valor são gastos com internação. A doença é a principal causa de internação de idosos e a segunda causa de internação clínica no país", destacou João Manoel de Almeida Pedroso, diretor do Instituto Nacional de Cardiologia. Segundo Canesin, 70% do valor é gasto dentro do hospital. "A maior parte do valor é investido quando o paciente está em estado grave. O dinheiro precisa ser investido antes, disseminando informação e prevenindo a doença", colocou o presidente da Rebric.

Tratamento

A insuficiência cardíaca não tem cura, mas o tratamento adequado impede a evolução da doença e estabiliza os sintomas. Segundo Salvador Rassi, presidente do Departamento de Insuficiência Cardíaca da Sociedade Brasileira de Cardiologia, o tratamento evoluiu nas últimas décadas, mas é preciso ainda facilitar o acesso a ele. "Nos anos 80, a mortalidade era muito alta e a qualidade de vida dos pacientes era muito ruim. Novas drogas foram surgindo e o cenário está melhor". Mas segundo Rassi, é preciso ainda facilitar o acesso aos medicamentos. "Fui a uma farmácia popular na semana passada com uma lista de medicamentos para insuficiência cardíaca e perguntei quais deles eu conseguia levar sem pagar, ou seja, quais o Governo paga. Só tinha uma medicação", contou.

Para Marcelo Westerlund Montera, coordenador do Centro de Insuficiência Cardíaca do Hospital Pró-Cardíaco, paciente e médico precisam desenvolver uma relação de parceria. "O paciente não pode negligenciar ele mesmo e o que sente. É preciso haver uma parceria com o médico", colocou. Além disso, o profissional precisa enxergar o indivíduo "holisticamente porque a insuficiência cardíaca é uma síndrome que envolve outras doenças. O cardiologista tem que gerenciar um conjunto de outras doenças, junto com outros especialistas. 90% dos pacientes de IC têm outras 2 ou 3 doenças associadas", explicou.

Cinco pontos precisam ser revistos caso o paciente em tratamento continue apresentando sintomas e/ou seja internado. "Primeiro é preciso rever se a causa da doença está bem definida. Segundo, se há alguma doença não conhecida e não tratada. Depois, os hábitos de vida do paciente. Em quarto lugar, se os fármacos usados são os mais adequados. Em quinto e último, a possibilidade de partir para soluções de suporte, como a colocação de um marca-passo ou o uso de um desfibrilador", enumerou o coordenador do Hospital Pró-Cardíaco.

O acesso à informação sobre a IC voltou a ser discutido na segunda mesa do evento. Para a coordenadora dos Protocolos Assistenciais Gerenciados e do Escritório de Valor do Hospital do Coração (HCor), Sabrina Bernardez Pereira, o controle da doença não pode ser responsabilidade apenas do paciente. "A gente joga muito no colo do paciente a responsabilidade do controle da doença e adesão ao tratamento. Porém, menos de 70% recebem informação adequada sobre a medicação e menos de 50% recebem orientação em relação à piora dos sintomas e ao que fazer", afirmou.

Para Sabrina, o conhecimento da enfermidade é importante para diminuir as suas descompensações. "É o que chamamos de alfabetismo em Saúde. No Brasil, em torno de 30 a 40% dos pacientes não conhecem bem a doença. Não adianta o Dr. Google porque o paciente não vai separar a boa literatura da ruim", destacou.

Perspectivas

A evolução da Insuficiência Cardíaca pode levar o paciente a necessitar de um transplante de coração. Para Fernando Bacal, diretor da Unidade Clínica de Transplante Cardíaco do InCor, em sete anos houve um aumento significativo no número de transplantes realizados no Brasil. "Há sete anos, foram 150. Ano passado, realizamos 400. Mas ainda estamos longe do ideal. Precisaríamos fazer 1200/ano. 800 pacientes não chegam ao transplante porque não são encaminhados ou morrem enquanto esperam a cirurgia", explicou o especialista. As perspectivas para o tratamento e controle da Insuficiência Cardíaca foram o tema da terceira e última mesa do Seminário Coração Fraco. 

Outro ponto levantado por Bacal é a falta de dados reais sobre a IC no cenário brasileiro. "É preciso implantar o prontuário eletrônico no Sistema Único de Saúde. Poucos hospitais têm informações disponíveis eletronicamente. Um paciente pode ser atendido hoje no InCor e, amanhã em um hospital de Belo Horizonte. O prontuário eletrônico seria útil nestes casos e ainda serviria como Big Data para discutir propostas de saúde com gestores", frisou Bacal.

Já para Amanda Gonzales, médica cardiologista da Unidade de Reabilitação Cardíaca do InCor, é preciso melhorar o atendimento pós-alta do paciente. "O médico entrega a receita para o paciente e diz para ele parar de fumar, fazer uma caminhada leve, ingerir menos sódio e menos líquido, mas não explica a importância disso. Sabemos que pacientes que recebem uma boa orientação no momento da alta aderem muito mais a modificações de estilo de vida", colocou Gonzales. "A reabilitação cardíaca é um conjunto de medidas com o objetivo de estabilizar a doença e minimizar os fatores de risco por meio de uma visão multidisciplinar", completou.

Porém, segundo a médica, o acesso à reabilitação cardíaca ainda é difícil e precisa ser revisto no Brasil. "Somente 20% dos pacientes com indicação são encaminhados para um programa de reabilitação. E metade dos que são encaminhados desistem por fatores como custo para chegar ao centro ou ter que trabalhar após o atendimento. Por isso, a perspectiva para a reabilitação é descentralizar o atendimento, formando pequenos centros em Unidades Básicas de Saúde", frisou Gonzales.

Entender as orientações passadas pelo médico no momento da alta é essencial para a adesão ao tratamento. Segundo a enfermeira coordenadora da Cardiologia Clínica e Cirurgia Cardíaca do Hospital São Paulo, Susana Basílio, muitas vezes o paciente não entende a importância da adesão e não conhece a patologia ou está em um período de negação da doença. "No momento da alta, muitos pacientes têm vergonha de indagar o médico sobre o que não entendeu. Como enfermeira, eu preciso perceber isso e orientá-lo. Além disso, temos um índice muito alto de pacientes IC com depressão, o que também dificulta a aderência ao tratamento", destacou Basílio.

O Hospital São Paulo tem hoje um ambulatório de Cardiologia, o que não é a realidade do Brasil. "Ao receber alta, o paciente faz este acompanhamento no ambulatório com um profissional enfermeiro e uma equipe multidisciplinar. Mas mesmo no atendimento ambulatorial, eu preciso garantir que ele entenda a importância de aderir ao tratamento. Por isso, é muito importante trabalharmos com a educação de saúde, que vai além da internação", explicou a enfermeira coordenadora.

Para a médica cardiologista e membro do Comitê Científico do Instituto Lado a Lado, Ariane Macedo, o evento abordou todos os aspectos da insuficiência cardíaca. "Ele cumpriu o objetivo de espalhar conhecimento e alerta sobre a doença. Deu uma visão geral sobre a enfermidade, o tratamento e as perspectivas futuras".

O presidente da Rebric destacou que os assuntos discutidos nas três mesas foram complementares. "Trouxemos vários stakeholders para este primeiro Seminário. Agora precisamos pensar no futuro. O paciente precisa ser cuidado na unidade básica. Atualmente, o médico de família ou da UBS não tem treinamento para diagnosticar e tratar a IC. Esse pode ser o tema a ser discutido em um outro seminário", apontou Canesin.

Segundo a presidente do Instituto Lado a Lado, a visão multidisciplinar apresentada no evento foi muito rica. "A informação para o Instituto é uma grande aliada e discutimos o tema com qualidade. Precisamos trabalhar para ter um diagnóstico precoce, em especial para os pacientes das Unidades Básicas de Saúde".

Incentivar o diálogo entre os profissionais da saúde, os pacientes e população brasileira é o caminho para promover mudanças na sociedade e gerar ações efetivas dos órgãos do Governo e centros de referência. A participação no evento demonstra que o LAL está comprometido em construir essa mudança, disseminando conteúdo de qualidade e alertando sobre a importância da prevenção, do diagnóstico precoce e da adesão do paciente ao tratamento. O Instituto entende que parcerias, como a realizada com a Folha de S.Paulo e a Rebric, no 1º Seminário Coração Fraco, são importantes para difundir o conhecimento da doença. Lado a lado e bem informados, podemos atuar de forma propositiva para diminuir o grave quadro da IC no Brasil.