Estenose aórtica: pesquisa do LAL revela que 80% dos brasileiros desconhecem a doença

Estenose aórtica: pesquisa do LAL revela que 80% dos brasileiros desconhecem a doença

Doença ganhou destaque em abril deste ano após o líder dos Rolling Stones, Mick Jagger, precisar passar por uma cirurgia de emergência para corrigir o problema na válvula aórtica. Foto: Shutterstock.com


Bia Rodrigues, Redação LAL - As doenças cardiovasculares são a principal causa de morte no mundo todo, principalmente infarto e acidente vascular cerebral. Mas, em abril deste ano, outra doença cardíaca ganhou destaque nos meios de comunicação nacionais e internacionais: a estenose aórtica. O líder do Rolling Stones, Mick Jagger, cancelou uma turnê pela América do Norte pouco antes de ser iniciada para passar por uma cirurgia de emergência para a troca da válvula, após ser diagnosticado com a doença.

De acordo com levantamento realizado em agosto deste ano, envolvendo 1000 brasileiros com 60 anos ou mais, o Brasil tem pouco conhecimento sobre a estenose aórtica: 17% acreditam saber do que se trata, mas apenas 6% conseguem identificar a doença corretamente. Foram ouvidos moradores das cidades de São Paulo, Rio de Janeiro, Brasília, Porto Alegre, Belo Horizonte, Salvador, Recife, Goiânia, Curitiba e Campinas. A pesquisa foi realizada com apoio da Edwards Lifesciences.

 Do total de entrevistados, apenas 12% colocaram a doença valvular cardíaca (ou valvulopatias);  em primeiro lugar entre aquelas que mais os preocupam, atrás do câncer (26%), AVC (23%) e o Alzheimer (18%).

A estenose aórtica é o problema mais comum das válvulas do coração. Ela limita o fluxo de sangue e dificulta o trabalho desse órgão. "A doença atinge a válvula aórtica e acomete normalmente pacientes idosos, acima de 65-70 anos. A calcificação da válvula promove essa estenose, que resulta em uma abertura menor e comprometida dela", explica o cardiologista intervencionista da BP - A Beneficência Portuguesa de São Paulo e presidente da Sociedade Latino-americana de cardiologia intervencionista, José Armando Mangione.

As chances de desenvolver uma doença valvular cardíaca crescem com a idade. Assim como Mick Jagger, muitos pacientes descobrem a doença em exames de rotina. Isso ocorre com frequência, conforme explica Mangione, pois as valvulopatias agudas acometem principalmente os idosos com 70 anos ou mais, e podem ser assintomáticas durante longos períodos de tempo - o que faz dela um perigo.

Estimativas apontam que, aos 75 anos, a prevalência da doença é superior a 13%. Já a estenose aórtica afeta entre 2% a 7% da população acima dos 65 anos. Com o envelhecimento da população, espera-se que a prevalência aumente ainda mais. "Quanto mais a população envelhece, mais casos de estenose aórtica serão diagnosticados. É o que acontece nos países europeus, por exemplo, que possuem uma expectativa de vida mais alta. O Brasil segue pelo mesmo caminho com o aumento da população idosa", coloca Mangione, que é ainda livre-docente pela Universidade de São Paulo (USP).

Ele ressalta que a função das válvulas é a regulação do fluxo sanguíneo entre as várias cavidades do coração e seus vasos principais. Logo, elas são essenciais para o correto funcionamento de todo o sistema cardiovascular.

"Existem quatro válvulas cardíacas, denominadas aórtica, mitral, tricúspide e pulmonar. Todas podem apresentar anomalias que irão manifestar-se de modo diferente. As valvulopatias agudas que afetam as válvulas aórtica e a mitral são as mais importantes, pelo seu impacto no organismo", explica o cardiologista.

Diagnóstico e tratamento

Entre os sintomas mais comuns da doença estão dor ou pressão no peito (angina), que pode ser descrita como um peso sobre o coração; sensação de queimação, choque ou aperto nos braços, ombros e pescoço, tontura, desmaio, sinais de insuficiência cardíaca, tais como fadiga e falta de ar, e palpitação. Esses sintomas são frequentemente associados ao processo de envelhecimento, e podem mascarar um problema mais sério. De acordo com a pesquisa, cerca de 45% dos entrevistados afirmaram que esses mesmos sintomas poderiam impedi-los de fazer atividades físicas, impactando de maneira significativa sua qualidade de vida.

O diagnóstico da doença começa pela análise dos sintomas. Segundo o doutor Mangione, após o paciente apresentar esses sintomas, o cardiologista ou o clínico geral devem auscultar o coração e, ao identificar um sopro, exames complementares devem ser realizados.  Os resultados da pesquisa realizada no Brasil esse ano mostram que quase 62% dos entrevistados passam por um exame de estetoscópio toda vez que visitam seu médico. Dr. Mangione lembra que, por ser assintomática, a melhor forma de prevenir-se é visitar o cardiologista pelo menos uma vez ao ano. "A confirmação do diagnóstico vem com a realização de um eletro e um ecocardiograma. Eles são básicos e muito importantes para se fechar o diagnóstico", diz o cardiologista intervencionista da BP - A Beneficência Portuguesa de São Paulo.

Quando perguntados sobre o tratamento, 33% dos entrevistados disseram preferir os medicamentos diários ao longo da vida, enquanto 29% optariam pelo procedimento cirúrgico. O médico explica que existem medicações para cuidar dos casos menos graves, porém os pacientes com valvulopatia aguda devem ser submetidos à cirurgia para substituir a válvula cardíaca impactada, por uma válvula artificial. 

No caso de Mick Jagger, foi necessária a realização de um procedimento de emergência para corrigir o problema, mas cada caso deve ser avaliado para que o tratamento mais indicado seja escolhido. "Normalmente, é uma doença que evolui lentamente. Às vezes, levam décadas para se tornar uma estenose grave, mas o paciente deve ser sempre acompanhado por um médico. A troca da válvula está indicada em casos de estenose aórtica grave, ou seja, quando a área da válvula fica menor que um centímetro quadrado. No caso de estenose leve ou moderada, os pacientes são controlados clinicamente, com realização de exames periódicos", explica o especialista.

A estenose aórtica pode evoluir e causar a insuficiência cardíaca (IC), consequência final de qualquer doença do coração e também desconhecida da população brasileira, segundo uma pesquisa realizada pela Ipsos a pedido da Novartis - 62% da população do país desconhece a IC. "Quando você tem estenose aórtica, a área da válvula aórtica abre mal, cria-se uma barreira e o sangue tem dificuldade para passar. Com o tempo, o músculo cardíaco é enfraquecido porque o esforço é maior, o que causa a insuficiência cardíaca. É preciso acompanhar o paciente para intervir antes da estenose aórtica grave comprometer o músculo e causar a insuficiência cardíaca", aponta Mangione.

Hoje há dois métodos disponíveis para resolver o problema: a substituição cirúrgica da válvula aórtica (SAVR) e o implante transcateter da válvula aórtica (TAVI). Para realizar o SAVR (método tradicional), é preciso abrir o peito do paciente para remover e substituir a válvula por uma artificial. O procedimento dura algumas horas e tem sido usado desde os anos 1960. Porém, com a idade e outros fatores de risco, ele não é recomendável para 30% dos casos. Os pacientes ficam internados entre 5 a 7 dias no hospital e a recuperação total pode levar 2 meses.

Já o TAVI é um método menos invasivo, usado em pacientes inoperáveis pelo método tradicional ou com risco médio ou alto para uma cirurgia, não sendo necessário abrir o peito e nem parar o coração e os pulmões. A válvula artificial é comprimida firmemente para passar pelo cateter, através de uma pequena incisão na virilha até o coração. A técnica reduz o tempo de internação, de recuperação e o risco operatório, mas ela ainda não é muito usada no país. "O método tradicional é ainda o mais usado no Brasil porque o transcateter não está autorizado pela Agência Nacional de Saúde (ANS). Isso faz com que os pacientes enfrentem dificuldades para a liberação do procedimento. Em países desenvolvidos, como Alemanha e França, o TAVI já ultrapassou o procedimento cirúrgico tradicional desde 2015", explica Mangione.

Para o cardiologista, a previsão é de que o procedimento via transcateter substitua o tradicional no futuro por ser menos invasivo e o paciente se recuperar mais rapidamente. "A estenose aórtica é uma doença, predominantemente, do paciente idoso. Ou seja, ele tem mais comorbidade para operar, porque normalmente já apresenta algum problema no rim, nos pulmões ou até mesmo no coração. Para o idoso, quanto menos invasivo o procedimento for, melhor. No futuro, deve haver apenas ele", conclui.