Diabetes exige mudança no estilo de vida e cuidados com o coração

Diabetes exige mudança no estilo de vida e cuidados com o coração

Doença crônica é fator de risco para doenças cardiovasculares e exige comprometimento do paciente com o tratamento


Bia Rodrigues, Redação LAL - Doença metabólica caracterizada pela falta ou má absorção da insulina e, consequentemente, elevação da glicose no sangue, o diabetes afeta 7,7% da população brasileira, segundo dados da última Pesquisa de Vigilância de Fatores de Risco e Proteção para Doenças Crônicas por Inquérito Telefônico (Vigitel), divulgada no final de julho, pelo Ministério da Saúde. Entre as mulheres, o índice é de 8,1% (2018), contra 7,1% dos homens. O crescimento do número de pessoas diagnosticadas com a doença foi de 40% entre 2006 e 2018. O diagnóstico da doença exige que o paciente adote estilo de vida mais saudável, controlando a alimentação, praticando exercícios físicos e aderindo ao tratamento indicado pelo médico. A mudança nos hábitos é fator importante para o controle da doença e um problema para a adesão ao tratamento.

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O diabetes é dividido em diferentes tipos, sendo os mais comuns o tipo 1 e o tipo 2 - 90% dos casos no mundo. A doença pode ser ainda gestacional, que ocorre durante a gestação e pode estar ligada ao aumento excessivo de peso da gestante; do tipo Lada, que se caracteriza por uma agressão ao sistema imunológico que destrói as células responsáveis pela produção de insulina no corpo; e do tipo Mody, com origem genética com sintomas semelhantes aos outros tipos. "O tipo 1 é aquele que acontece mais em crianças e caracteriza-se pela ausência de insulina. O paciente é insulinodependente. O tipo 2, o mais comum, é caracterizado por uma dificuldade na ação da insulina. O corpo produz insulina, mas ela não é suficiente para manter a glicose circulando. Os outros tipos são mais raros", afirma a endocrinologista e médica assistente do grupo de Obesidade e Síndrome Metabólica do Hospital das Clínicas, Maria Edna de Melo.

O diagnóstico do diabetes é feito por meio de um exame de sangue em jejum para medir a taxa de glicemia, pela curva glicêmica e a hemoglobina glicada. O valor de referência normal da concentração de glicose no sangue, após 8 horas de jejum, é de até 99 mg/dL. Valores de 100 a 125 mg/dL são considerados alterados e podem indicar um quadro pré-diabético. Se a pessoa apresentar dois exames de glicemia em jejum maiores ou iguais a 126 mg/dL e glicemia maior que 200 mg/dL a qualquer hora do dia, ela é considerada diabética. Exames adicionais, como curva glicêmica e teste de tolerância à glicose podem ser pedidos para confirmar o diagnóstico.

"O pré-diabetes é uma situação mais relacionada ao tipo 2. Ele é caracterizado por uma elevação da glicose, mas não tão alta para caracterizar a pessoa como diabética. É uma evolução da doença. Não existe uma padronização do tratamento para o pré-diabetes. Alguns estudos apontam que os medicamentos nessa fase podem diminuir a progressão para diabetes. Outros mostram que a mudança no estilo de vida é eficaz também, com a prática de exercícios físicos e a alimentação", explica a endocrinologista.

Receber o diagnóstico da doença não é fácil. Aos 8 anos de idade, o corretor de imóveis Caio Ricardo Lopes Paolillo, de 30 anos, foi diagnóstico com diabetes tipo Mody. "Tenho casos de diabetes na família: minha mãe e avó paterna. Receber o diagnóstico foi difícil, pois toda criança tem suas vontades e não consegue entender os limites de não poder comer açúcar e afins. Após um certo tempo, acabei aceitando e respeitando minha nova realidade", contou Ricardo em entrevista para a Redação LAL. No caso da dona de casa e comerciante, Zélia Miranda, de 61 anos, a confirmação do diagnóstico veio já na fase adulta. "Fui diagnosticada em 1998, após um exame de sangue. Meus pais e meus avós eram diabéticos. Na época o médico me disse: 'meus pêsames, você está diabética'. Nunca imaginei que seria uma afirmação tão amarga", relembrou a dona de casa.

O diabetes é ainda um fator de risco para outras doenças. A pesquisa "Quando o diabetes toca o coração", feita pela revista Saúde e pela área de Inteligência de Mercado do Grupo Abril, realizada com pessoas com diagnóstico e sem, mostrou que grande parte dos brasileiros está mal informado sobre a doença. Para dois terços dos entrevistados sem diabetes, a doença não é algo muito grave, e mais da metade dos diagnosticados não a vê como uma condição extremamente séria. Quando se trata sobre fator de risco para problemas cardíacos, a doença foi considerada menos impactante que outros perigos, como pressão alta e cigarro. "O diabetes leva a um comprometimento micro e macrovascular. Os microvasculares são a retinopatia, que pode levar a perda de visão; nefropatia, que pode resultar na perda de função renal, e neuropatia, com comprometimento nervoso e das extremidades, que podem resultar em amputações. Nas macrovasculares, se enquadram os eventos cardiovasculares com maior risco de AVC e de infarto do miocárdio", colocou a doutora Maria Edna.

Para Zélia, que já convive com complicações do diabetes e toma medicamento para reduzir o risco de infarto, a vida com a doença é muito sofrida. "Sofro doenças que não desejo a ninguém. Tenho neuropatia diabética, que é uma desordem neurológica que acomete diabéticos, e vivo com dor 24 horas por dia. Às vezes, ninguém acredita no meu sofrimento. Como resultado disso, desenvolvi uma depressão. Hoje, preciso de remédio para dor e para dormir. Vivi o sofrimento da minha mãe, que por problemas cardiovasculares, precisou amputar uma perna e metade de outro pé", contou a dona de casa e comerciante, que mede o nível de glicose no sangue três vezes ao dia.

O diabetes exige que a pessoa tome medicamentos diários ou use insulina. Além disso, os hábitos alimentares precisam ser alterados e a prática de atividade física é recomendada. "A mudança do estilo de vida é uma dificuldade para que o paciente controle o diabetes e para a adesão ao tratamento. Adotar um novo estilo de vida é algo complexo. O ambiente que temos não facilita as boas escolhas alimentares e a prática de atividade física. Em um supermercado ou restaurante, os alimentos que mais chamam a atenção são os mais calóricos e eles são geralmente muito mais baratos do que os saudáveis", afirmou a endocrinologista.

Para a comerciante e dona de casa, o diagnóstico a fez perder alguns prazeres com a alimentação. "O diabetes terminou com o prazer que de comer um docinho. Além disso, a gente não é educada a se alimentar bem. Demorei muitos para entender que não era o açúcar o meu maior inimigo. É o açúcar, a farinha, a batata, o macarrão, etc. Tudo isso vira açúcar no sangue. Como é que você apaga isso da sua vida? É a sua história inteira. É triste demais abandonar esses prazeres e, mais triste ainda, quando você não abandona e sofre mais", disse Zélia.

No caso do corretor de móveis, que convive com a doença desde a infância, a situação foi outra. "Eu recebi a notícia por volta dos 8 anos de idade, foi uma situação difícil naquele momento. Mas desde que a doença esteja sendo acompanhada por profissionais qualificados e que se respeite os limites dela, não acredito que seja um limitador para que se tenha uma qualidade de vida boa. Sempre fui praticante de esportes, portanto, só alterei aos poucos o hábito alimentar. É algo que requer muito esforço e dedicação, principalmente, para pessoas que gostam muito de comer", contou Caio, que mede a glicemia por meio de exames de sangue laboratoriais, a cada seis meses.

Grande parte dos diabéticos consegue conviver bem com essa doença crônica e não apresenta complicações mais sérias. Mas ainda há questões a serem resolvidas. "Não vejo um movimento de orientação para as pessoas mais velhas. Na minha época, filho tinha que comer doce. Agora, muitas mães evitam dar refrigerante e açúcar. Então, temos pessoas mais velhas que não fazem ideia de como enfrentar o diabetes. Não é todo médico que olha no seu olho e explica tudo", apontou Zélia. "Hoje em dia, acredito que as pessoas estejam mais informadas, mas não o suficiente. Temos mais alimentos indicados para diabéticos, porém, ainda não acessíveis por serem mais caros", colocou Caio. Estar bem informado é essencial para que os pacientes consigam ter uma boa qualidade de vida e isso é responsabilidade de todos: instituições de saúde, governos e profissionais da área, além do próprio paciente que precisa ser protagonista de sua saúde.